terça-feira, 2 de junho de 2015

Para uma jovem solitária em Paris







Era segunda-feira, nove da noite, e Gare Du Nord parecia estar apenas se espreguiçando timidamente depois de um cochilo, para mostrar como é que se faz uma zona boêmia em Paris.

Anote aí: é preciso uma profusão de luzes coloridas, buzinas, som de automóveis e de rodinhas de malas ecoando no pavimento, é preciso uma encantadora estação de trem e jovens -milhares deles- chegando de toda parte do mundo, maravilhados ao verem pela primeira vez a Rua Dunkerque tomada de cafés, boulangeries e sex shops. Ah, e na verdadeira zona boêmia de Paris não poderia faltar alguns bêbados trôpegos e pedintes maltrapilhos, são eles que mantém as pessoas mais afetadas distantes da região.

E lá em qualquer parte de Gare Du Nord, num pub cheio de jovens estrangeiros que faziam sequências intermináveis de brindes, a noite estava começando. Algumas meninas loiríssimas de bochecha cor de rosa queimada de frio se aventuravam na pista de dança ainda deserta enquanto Rihanna se eternizava como música tema para um casal que se beijava desesperadamente a um canto “Where have you been all my life?”. O grupo de brasileiros com camisa de time gargalhava alto e procurava avidamente pela próxima presa. Os argentinos ao lado olhavam de esgueira e estufavam no peito o agasalho do Boca Juniors, procurando, talvez, por uma presa brasileira -apenas para implicar, sabe como é.

Então meio à música eletrônica, às diversificadas nacionalidades, àquele lounge que exalava juventude e o cheiro forte de shots de tequila, havia essa garota que dançava feito uma bailarina embriagada e distribuía sorrisos faceiros e piscadelas divertidas às pessoas ao seu redor. Eu, sob hipnose feito os demais, pousei meu drink na mesa, guardei o telefone celular e dei pause em minha vida simplesmente para assistir aquela moça viver.

Dançava um ritmo que tocava apenas em sua mente e seus braços magros, compridos, desengonçados, faziam-na parecer engraçada à primeira vista. Mas ela sorria –sorria principalmente com os olhos -, gargalhava, sacudia os charmosos cabelos castanhos e magicamente as luzes do pub e do universo voltavam-se para ela.

Imagino que quando Amy entrou no pub, com aquele vendaval que a acompanhava, passando as mãos pelos cabelos de uma maneira deliciosamente pretensiosa, todas as meninas ajeitaram o decote, retocaram o batom, se olharam no espelho, procurando ali algum resquício de sensualidade, porém Amy, naturalmente atraente e autoconfiante como somente alguém com tanto magnetismo podia ser, não se importava nem um pouco; pelo contrário, instantes depois se vendo só, puxou as tímidas russas para a pista de dança e fez uma festa ao redor de si mesma.

Eu ainda não conseguia deixar de olhá-la, então me aproveitei do providencial anonimato que nos acompanha em viagens internacionais (afinal, quem era eu, senão mais alguém só no mundo?), e decidi me aproximar de Amy. É claro que da decisão e do discurso ensaiado até uma ação efetiva transcorreu longo tempo, mais precisamente, o tempo de dois drinques. Por fim conclui que não haveria testemunhas de qualquer que fosse o vexame e adaptei a popular frase para aquele meu momento:

-O que acontece em Paris, fica em Paris.

A caminho de Amy (ela estava escorada no bar aguardando outra bebida) meu coração deu meia dúzia de saltos. Somente quando me aproximei e cantarolei um embaraçado “Hi” foi que me dei conta de que não tinha absolutamente nada para lhe dizer. Mas aquela garota não hesitava em ser incrível e me abriu um simpático sorriso, como se nos conhecêssemos de longa data. Sedutora incorrigível, Amy me ganhou na terceira frase:
-Eu sabia que você era do Brasil. –sorriu mais uma vez e se adiantou em explicar diante de minha confusão. –As pessoas do Brasil são as mais bonitas.

Piscou com um olho só e saiu novamente em direção à pista de dança.

Permaneci em êxtase no bar planejando a próxima conversa que teríamos. É claro que eu seria capaz de falar mais do que uma frase e certamente não gaguejaria; Amy continuaria sorrindo com seus intensos olhos castanhos e perceberia num estalar de dedos que eu também era incrível.

Enquanto ela dançava, eu aguardava seu retorno ao bar e brincava em minha mente de adivinhar-lhe a vida. Parecia, daquele ângulo, uma jovem francesinha fugida do tédio de Trocadero, cansada dos rapazes óbvios e das casas noturnas da parte alta de Paris, escolhia as segundas-feiras para extravasar nos arredores da cidade o desprezo que sentia pela burguesia. Mas num outro viés, Amy me parecia descolada demais para Trocadero e eu lhe dava asas: era intercambista ou mochileira e aquela ela sua última noite em Paris, nada mais justo que se divertisse tão intensamente. Por fim, me rendi ao romantismo clichê e concordei que Amy era uma moça simples do interior da Alemanha que viera tentar a sorte num lugar diferente, mas por enquanto ganhava seus trocados trabalhando como garçonete e aquele segunda-feira era uma merecida noite de folga. Amanhã bem cedo vestiria seu uniforme e com os olhos ainda ressaqueados tomaria um café duplo (aquele horrível café parisiense!) e pegaria o metro para a Avenue Montaigne, onde andaria cabisbaixa para se misturar à multidão apressada. Ah, Amy, alemã e francesa em seu dia a dia, fazendo preces em Sacre Coeur, comprando flores em Montmartre, mandando postais de Notre Dame para seus pais...

Eu de olhos perdidos na fantasia, perdi Amy de vista e já pelas tantas da madrugada foi que ela voltou ao pub num rompante, fazendo a porta bater atrás de si. Não sei quanto tempo ficou fora, sei que o lugar havia novamente se tornado insosso, mas ela tampouco parecia querer reacender seus espectadores: estava apática, o semblante sério e os olhos que antes me sorriam, eram agora os mais tristes do mundo, mergulhados em melancolia e solidão.

“Estamos todos sozinhos também, Amy”, eu gostaria de tê-la dito e consolado a angustia que agora escorria silenciosamente de seus olhos e morria na curva do queixo “Aproxime-se de sua solidão, celebre sua presença, ela lhe mostrará que não é tão feia e amarga quanto lhe disseram as pessoas efusivas; os seus medos você os conservará tal e qual inimigos, bem junto de si, e de tempos em tempos encare-os severamente para eles sintam...medo. E não tente se desfazer desse caos que habita em você, menina, antes, aceite-o. Aprenda a conviver com as nuances escuras de sua alma, Amy, são elas que te fazem tão inesquecível..” era o que eu gostaria de ter dito ao enxugar suas lágrimas e passar os dedos por entre seus cabelos.

Mas Amy levantou-se novamente, me sorriu um sorriso doce e tão doído que quase me partiu ao meio, pegou a bolsa e o casaco (Parecia uniforme de um restaurante ou eu já havia enlouquecido?) e saiu silenciosamente do bar.

O resto disso são só divagações da minha mente que guardo sobre Paris. 


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