domingo, 18 de dezembro de 2016

"Lar é onde está meu coração"


Lar, para mim, sempre significou pessoa e não lugar.

Lugar é qualquer cantinho desse mundo onde se pode pendurar um quadro seu, é qualquer pedaço de escritura em com nome e sobrenome, é conforto comprado com dinheiro, é passagem com destino e horário incerto, pois certo mesmo é que não haverá ninguém te esperando na chegada.

Mas lar. Lar é sempre onde moram as pessoas que amamos, essa gente que nos norteia mesmo sem bússola ao alcance e tem um dom interessante de abraçar com o olhar. Lar pode ser o lugar mais feio do mundo, mas de uma feiura aconchegante, quase bonita de ver; é sair querendo voltar e quando voltar, suspirar aliviado.

Por muito tempo acreditei que, pelas leis do Universo, um lar só poderia ser deixado em detrimento de outro, de modo que haveria sempre um porto para chamar de meu aguardando o retorno. Qual não foi a minha surpresa quando percebi num dia desses, vagueando mundo afora, que não via mais sentido em voltar? Estranhamente perdi meu porto e também deixei de ser um -me dei conta de que sem me sentir em meu lar, vivia navegando à deriva.

Assim, errante mar afora, me pego com a chave nas mãos sem saber se há qualquer diferença entre entrar ou sair; desesperada por ver sentido no cotidiano, tento trazer sabores cada vez mais fortes a uma vida irremediavelmente insípida; desorientada de meu destino, compro passagens para novos lugares certa de que haverá alguém esperando por mim no saguão.

Mas não há.

Não há nada nem ninguém que me traga um novo significado plenitude e finalmente fui obrigada a dar uma nova compreensão ao que antes chamava solidão: sem lar ou terra à vista, fiz morada em mim mesma. 

domingo, 27 de novembro de 2016

Adeus a um amor que já se foi



                                                                 “a gente morre é para provar que viveu. […]".
                                                                                 Guimarães Rosa
 


Um susto, uma lágrima tímida, uma saudade vinda de longe... 

De um tempo em que eu sorria encantada feito moça de vinte e dois anos e você me cuidava, tal e qual menino-homem de vinte e quatro - loucamente apaixonados um pelo outro. Desse tempo guardei num canto do coração, em uma caixinha empoeirada, aquele tanto de história nossa – os cheiros, as fotos, os sorrisos (meu Deus, seu sorriso), as noites em claro e, é claro, nossa peculiar trilha sonora: eu pensava em você ouvindo Katy Perry, você pensava em mim ouvindo Hugo Pena & Gabriel

Depois do susto, da lágrima tímida e de acordada essa saudade distante, veio uma dor surda, angustiante, saltando no peito ao mesmo ritmo que o coração, me perguntando a cada novo segundo: como é que eu, paixão de seu passado, poderia lidar com a notícia de sua prematura morte? Lá tinha direito de chamar de sofrimento o que sentia quando imaginava seus pais, sua irmã, sua noiva..? “Não, moça, sossega que é pretensão demais vestir o luto por um amor do passado.”

Porém foi passando o tempo. Uma hora, duas, um dia, dois... E o que deveria ir amenizando feito uma lembrança doce foi tornando-se cada vez mais dolorido, a imagem do sorriso machucava em cheio no peito e as lágrimas foram aumentando uma a uma, num gotejar intenso, até se transformarem em torrente. Tento mandar e desmandar nessa dor, mas com ou sem razão no luto (e como você costumava dizer) "o coração ta capotando aqui dentro".

Não que fossemos ainda um do outro. Não que eu o enxergasse em meu futuro. Não que eu não seja capaz de compreender que fomos inesquecíveis, mas seguimos em frente. Porém há esse porém que eu não sei explicar. Essa dor de ver as lembranças que me faziam sorrir e sentir saudade gostosa tornar-se lembrança de fazer chorar e sentir saudade doída. Antes, eu sorria de olhos fechados ao lembrar seu tom de voz altíssimo e o sotaque de menino da roça “Lindinha! Cadê ocê?”, mas agora abrir a caixinha de recordações e olhar para nosso passado só faz entristecer. 

Terminar este texto soa como despedir-me de você para sempre – uma despedida que nunca tivemos – e temo que escreva aqui mais tantas frases sem sentido para não ter que dizer adeus. Contar pro mundo como você deu um jeito nos acasos do destino e veio parar em Teófilo Otoni, me sorrindo cheio de graça e mandando beijos de uma arena de rodeio; como depois disso, magicamente, passou a transformar meus dias difíceis de Coronel Fabriciano em dias de alegria; como dizia que "qualquer dia" ia me ver e no outro aparecia na porta da minha casa, o carro largado no meio da rua e um abraço que, se fechar os olhos, posso sentir até hoje. Por isso tudo eu ainda não consigo me despedir, mas por isso tudo também sou eternamente grata, André. 

Ainda que não tivesse partido tão cedo, ainda que não fosse um menino-homem tão excepcional, ainda que eu não tivesse notícias suas por uma ou duas décadas e só me lembrasse de você bem velhinha, contando histórias de amor para minhas netas... Você já estava perpetuado em meus pensamentos desde sempre e guardado na caixinha de minhas pessoas inesquecíveis para sempre. 

Que essa saudade novamente se transforme em recordação boa e, por enquanto, "té breve, bicho baum". 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

CASOS DE NOSSAS FOTOS VELHAS

 Recomendo para ouvir : Every Pitcure Tells a Story


        Eu sou suspeita para criticar, pois me descobri uma devota às selfies; aliás, tão selfish me tornei que o único “ista” que posso me afirmar hoje é “ego”. Mas 
guardem os julgamentos para vocês; eu só queria ser fotógrafa profissional de alguma paisagem e coincidentemente a única paisagem que posso me dizer conhecedora é a do meu próprio rosto.

Pois bem. Entre uma selfie e outra, pensei em fazer algo de mais útil e me pus a...pensar. Lembrei-me de um programa que, diferente de montanha-russa no sábado à tarde, cinema com filme dublado ou café forte sem açúcar, atende aos gostos mais exigentes e até hoje não conheço quem diga que não goste de ver fotos antigas. Sim, aquelas antigonas que só uma de nossas tias tem trancada às sete chaves num armário de mogno, ou aquelas que, por razões absolutamente desconhecidas, as mães insistem em mostrar aos namorados.

E a reunião de foto antiga mais divertida geralmente começa de maneira despretensiosa, no café de madrugada da casa de tia Zulmira ou depois da pizza e do filme em tia Ném; de repente, estamos todos sentados no chão enquanto o arsenal, ao ser passado de mão em mão, gera fontes inesgotáveis de bullying familiar “Pelamor de Deus, ó meu cabelo gente! Por que cês não me falavam”, “E André que só tinha essa bermuda?”, “Nossa, tia, queima essa foto aqui!”. Por um lado gargalhadas, por outro, suspiros e olhos marejados de lembranças: sempre tem aquela foto do Carnaval de 1996, em Alcobaça, quando estávamos reunidos tomando Milk Shake na Khalua e aí alguém solta “Tempo bom que não volta mais...” Perco tempo me perguntando agora: no futuro vou sentir saudade do presente, como no presente sinto falta do passado? Experiências me dizem que sim... Vai saber?

Mas interessante mesmo -constatei depois de ver tantas fotos antigas- é que nossos pais com uma Kodak e um filme de 36 poses que deveria durar todo o verão, não hesitavam em registrar fotos que não pareciam muito profissionais e provavelmente não captavam nossos melhores ângulos (outro salve pra tia Ném!); se a gente parar pra reparar bem são umas fotos meio feias essas fotos antigas, principalmente se não for foto da nossa família: é cara amarrada no banco de trás do carro, um sem fim de bocas e dentes numa gargalhada, rosto sujo de picolé de minissaia, trezentas crianças sem camisa na carroceria de uma Fiorino (isto sem mencionar as fotos da ceia do Natal!). 
Verdade que talvez falte às nossas fotos antigas alguma beleza, -a beleza óbvia e apática que nossa geração #selfiesh é perita em registrar -, talvez uns filtros caíssem bem e uma iluminaçãozinha não fizesse mal, entretanto, diferente de minha pasta intitulada ‘Selfie’ que poderia ser facilmente substituída por ‘Nadas’, diferente de rostos perfeitos e vazios, de moeda de troca por like e atenção, todas as nossas fotos antigas contam uma história, não é mesmo? 



Saudoso vô Luciano... Saudoso pé de goiaba!


Carreta Furacão dos anos 90


Mãe diz: “Poe o capacete no de cabelinho liso, ta moço?”


Cosmopolitan indo passar um efe-de-esse com meu pai em GV (de lá pra cá não mudou muita coisa)



Rosinha, nossa canoa!

Bendito sacaneado entre as primas



Essa não é antiga, mas eu quis postar mesmo assim porque é vó soberana. 



E pra encerrar: a gente na Kalua, tomando Milk Shake, em um Carnaval de 1900 e bolinha de gude (apesar de que nessa foto nem tem eu, mas ah, deu pra entender...)


sábado, 2 de julho de 2016

Qual é a música da vida de vocês?






Esses dias estive revirando o baú velho do meu passado procurando algo que naquele momento me parecia imprescindível, mas imprescindível é a primeira coisa que me vem à mente até  que eu me esqueça dela, de modo que do meu passado voltei com tudo quanto  é tralha e lembrança nos braços, menos a tal coisa que comecei a procurar.

E dentre as novas tralhas e lembranças, que agora me pareciam absolutamente...imprescindíveis, estavam minhas músicas antigas. Você já ouviu uma música que se tornou a trilha sonora perfeita para sua vida, ou fez de suas viagens ainda mais inesquecíveis e não importa quanto tempo passe, aquela música ainda vai te sacudir por dentro?
Mas é claro que você já ouviu. É claro que você tem uma música sua.

Eu ainda me lembro de quando ouvi Stairway to Heaven pela primeira vez, aos cartorze ou quinze anos, na casa de um de meus amigos e como foi estranho constatar, logo nos primeiros sons do dedilhado melancólico, que aquela era a minha música e me marcaria dali por diante. Uma dessas descobertas mágicas.
Só que havia me esquecido dessa sensação encontrar algo bom de repente.
Meus sentidos se tornaram meio surdos e a falta de tempo só tem me permitido ouvir “As Top 10 da Semana” de modo que minhas novas descobertas se resumem um combo de cantores de um só sucesso e música inferninho do último verão.

É tanta praticidade deixar o aplicativo escolher a playlist, deixar o site fazer o roteiro de viagem, ou a crítica dizer o que deve ou não ler, que cada vez menos há chances de boas surpresas, e quando você se assusta ta usando até as palavras práticas para se referir a momentos e sentimentos “Pessoa top”.
Não, não, não. Me chama de formidável, mas não me chama de top, -estou abdicando de tudo aquilo que pode ser definido de maneira tão simplória e fria.

Mas voltando à falar da música, porque na verdade eu não tinha absolutamente nada para escrever –só queria mesmo postar essa foto linda do Robert Plant, mas ia ficar sem sentido e sem assunto, aí pensei em escrever um parágrafo sobre uns CDs antigos que encontrei, de quando tinha dezesseis anos, porém detesto casos resumidos aí acabou que – 

MAS voltando a falar da música: qual é a de vocês?

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pela frustração nossa de cada dia (nota da terapia)

                                          (Escuta essa música.) 

No começo, bem no começo, eu achava que terapia fosse uma encheção de saco estilo “Um dia daqueles” e demais livrinhos autoajuda que mandam relatar a experiência de abraçar uma árvore. Não me julguem, eu nunca havia experimentado tal tratamento, mas sendo metida a opinar sobre tudo, essa era minha opinião. “Veja bem”, eu me pegava zombando “como é que a pessoa diz ‘Não fique triste’ e aí a gente, pá, simplesmente não fica? Eu não perco meu tempo”.

Porém os tortuosos caminhos da vida nos levam a pagar a língua, de modo que em uma devastadora manhã de sábado deixei de lado meus preconceitos e me rendi a uma primeira sessão de terapia. Tão deprimida estava que de cética passei logo a crente fervorosa: minha terapeuta era a tábua do náufrago, as sessões curariam milagrosamente a melancolia que eu carregava nos olhos e meus dias seriam todos de sol. “Como não pensei nisso antes? Procurar ajuda profissional... Tão óbvio, certo?”.

Então.

Por um tempo levei comigo essa estúpida certeza de que sessões de terapia serviam para nos tornar instantaneamente felizes. Entra na sala chorando, sai sorrindo, magic; afinal aquele tal profissional não possuía em qualquer canto de sua bolsinha a fórmula exata do amor, do sucesso, da alegria, da coragem, do modo de ver a vida? Não, ele não possuía e nem possui. Não existe fórmula, nem tutorial no Youtube, nem palestra motivacional que te faça chegar lá. Existe o mundo te encarando e você encarando o mundo de volta. E quando nos perdemos numa dessas voltas, seu amigo terapeuta em vez de lhe responder feito um oráculo “Termina esse namoro, minha filha”, ou “Muda de cidade, amigo”, faz muito melhor: te leva numa dessas viagens espaciais entre passado, presente e futuro, pontuando erros e acertos, preferências e anseios, fracassos e vitórias, e de repente, voilà, cê continua sem uma resposta concreta, mas algo no fundo de seu coração, talvez ali atrás da porta, sussurra “Já sabe o que deve fazer, né?”. 

Muitas vezes, depois de intensos debates travados entre eu, eu mesma e meu amigo terapeuta, cheguei a conclusões que me deixaram satisfeitíssima com a vida e saí da terapia certa de que esse negócio fazia a gente feliz mesmo, ponto final e bora todo mundo abraçar a árvore.

Entretanto noutras vezes colocamos as cartas na mesa, amigo terapeuta e eu, e ao final da sessão eu estava triste, mas triste de não ter fim, a ponto de sair daquela sala e ir direto embora para Pasárgada com a passagem só de ida no bolso. Veja bem: eu e eu mesma não chegamos a um consenso e eu não saberia lhes dizer quão doloroso foi me aconselhar a fazer exatamente o contrário do que meu coração tolo ansiava. A um lado, a criança apaixonada insistia dizendo “Mas eu quero tanto, tanto...”, enquanto as experiências, histórias e os objetivos arrematavam feito uma ríspida mãe, “Hoje não” e mais tarde, em um futuro não sei quão distante, talvez eu fosse capaz de me agradecer por ter deixado de alimentar felicidades clandestinas com mentiras sinceras... Não sei. Sei que há os dias bons e os dias ruins.

Entre idas e vindas de terapias entendi que, por sorte, ninguém prometeu curar a persistente melancolia de minha alma ou essa mania de conversar com folhas em branco, e graças a Deus por essas promessas não feitas, pelo tempo que nem sempre será bom, pelas súbitas vontades de ir embora pra Pasárgada, pelos finais que nem sempre serão felizes (mas nem sempre serão finais...). Graças a Deus por amigos terapeutas que não prometeram me livrar das frustrações.  
Viver é quase nada de um mar calmo.