quinta-feira, 14 de abril de 2016

Pela frustração nossa de cada dia (nota da terapia)

                                          (Escuta essa música.) 

No começo, bem no começo, eu achava que terapia fosse uma encheção de saco estilo “Um dia daqueles” e demais livrinhos autoajuda que mandam relatar a experiência de abraçar uma árvore. Não me julguem, eu nunca havia experimentado tal tratamento, mas sendo metida a opinar sobre tudo, essa era minha opinião. “Veja bem”, eu me pegava zombando “como é que a pessoa diz ‘Não fique triste’ e aí a gente, pá, simplesmente não fica? Eu não perco meu tempo”.

Porém os tortuosos caminhos da vida nos levam a pagar a língua, de modo que em uma devastadora manhã de sábado deixei de lado meus preconceitos e me rendi a uma primeira sessão de terapia. Tão deprimida estava que de cética passei logo a crente fervorosa: minha terapeuta era a tábua do náufrago, as sessões curariam milagrosamente a melancolia que eu carregava nos olhos e meus dias seriam todos de sol. “Como não pensei nisso antes? Procurar ajuda profissional... Tão óbvio, certo?”.

Então.

Por um tempo levei comigo essa estúpida certeza de que sessões de terapia serviam para nos tornar instantaneamente felizes. Entra na sala chorando, sai sorrindo, magic; afinal aquele tal profissional não possuía em qualquer canto de sua bolsinha a fórmula exata do amor, do sucesso, da alegria, da coragem, do modo de ver a vida? Não, ele não possuía e nem possui. Não existe fórmula, nem tutorial no Youtube, nem palestra motivacional que te faça chegar lá. Existe o mundo te encarando e você encarando o mundo de volta. E quando nos perdemos numa dessas voltas, seu amigo terapeuta em vez de lhe responder feito um oráculo “Termina esse namoro, minha filha”, ou “Muda de cidade, amigo”, faz muito melhor: te leva numa dessas viagens espaciais entre passado, presente e futuro, pontuando erros e acertos, preferências e anseios, fracassos e vitórias, e de repente, voilà, cê continua sem uma resposta concreta, mas algo no fundo de seu coração, talvez ali atrás da porta, sussurra “Já sabe o que deve fazer, né?”. 

Muitas vezes, depois de intensos debates travados entre eu, eu mesma e meu amigo terapeuta, cheguei a conclusões que me deixaram satisfeitíssima com a vida e saí da terapia certa de que esse negócio fazia a gente feliz mesmo, ponto final e bora todo mundo abraçar a árvore.

Entretanto noutras vezes colocamos as cartas na mesa, amigo terapeuta e eu, e ao final da sessão eu estava triste, mas triste de não ter fim, a ponto de sair daquela sala e ir direto embora para Pasárgada com a passagem só de ida no bolso. Veja bem: eu e eu mesma não chegamos a um consenso e eu não saberia lhes dizer quão doloroso foi me aconselhar a fazer exatamente o contrário do que meu coração tolo ansiava. A um lado, a criança apaixonada insistia dizendo “Mas eu quero tanto, tanto...”, enquanto as experiências, histórias e os objetivos arrematavam feito uma ríspida mãe, “Hoje não” e mais tarde, em um futuro não sei quão distante, talvez eu fosse capaz de me agradecer por ter deixado de alimentar felicidades clandestinas com mentiras sinceras... Não sei. Sei que há os dias bons e os dias ruins.

Entre idas e vindas de terapias entendi que, por sorte, ninguém prometeu curar a persistente melancolia de minha alma ou essa mania de conversar com folhas em branco, e graças a Deus por essas promessas não feitas, pelo tempo que nem sempre será bom, pelas súbitas vontades de ir embora pra Pasárgada, pelos finais que nem sempre serão felizes (mas nem sempre serão finais...). Graças a Deus por amigos terapeutas que não prometeram me livrar das frustrações.  
Viver é quase nada de um mar calmo.  


quinta-feira, 31 de março de 2016

ÓLEO DE COCO: E EU ACREDITEI


Hoje deixarei meu egoísmo de lado e não vou falar de minhas crises existenciais ou chorar confusões. Hoje o assunto é mais profundo e a situação exige que um viés de blogueira antenada e falante venha dividir novidadinhas com vocês no melhor estilo “Oi gente, tudo bem com vocês?”. Pois bem, falaremos de cabelo.

Do latim: Cabellls.


Então, muitos dos meus leitores me mandam tweets, emails e comentários perguntando como é que cuido das minhas madeixas para que estejam sempre com esse aspecto opaco, sem balanço, sem vida, sem corte e hoje vou atender aos pedidos e dividir um pouquinho dessa minha rotina com vocês. 

Fui uma pessoa muito vaidosa em tempos de minha juventude. Talvez por falta do que fazer ou por pura insegurança quanto ao que meu conteúdo poderia oferecer, eu era capaz de passar uma tarde inteirinha estirada no sol fazendo marquinha de biquíni, hidratando os cabelos e esfoliando o corpo. Hoje eu sou uma senhora um tanto sem paciência, portanto dedico minhas tardes livres geralmente a... Livros. Mas aí um anjo sussurrou em meu ouvido que minha pele estava muito pálida, o corpo desleixado demais e os cabelos então... “Fia, dá um jeito nisso, ta uma droga”.

Breve história dos meus cabelos: não é liso, nunca foi, nunca será. Trabalhoso a vida toda, ele insistia em se tornar mais rebelde quando se comparava aos cabelos de capa de revista de todas as minhas primas, o que deixa claro que não tive uma infância fácil.  Entre uma progressiva e outra, entre umas quedas de cabelo e outras, entre uma textura de cabelo de plástico e outra, fui largando as químicas (e  largar progressiva é igual largar vício: tem recaída, abstinência, tristeza, superação e tudo mais). Mas não é porque o cabelo não está exatamente do jeito que você sonha que por isso vai fazer como eu e largar de mão dos coitados dos fios usando xampu do irmão, da mãe, do cachorro, né?



Primeiro assisti um vídeo dizendo “Faça um cronograma capilar” e aparentemente é necessário hidratar, nutrir, umectar o cabelo quase que toda semana –Pausa para pensar: não tenho um cronograma da minha vida, da minha hora de comer, da hora de ir pra academia, vê lá se vou ter cronograma de cabelo? – ok, vamo tentar. Passei a nutrir os cabelllsss com uma máscara reconstrutora da L’óreal (Porque Você Vale Muito) uma vez ao mês e hidratar com uma máscara dessas baratas mesmo duas vezes na semana (a da Ox, por exemplo, é ótima). Aí nesse entremeio minha prima me falou do óleo de coco: cura resfriado, dor nas costas, prisão de ventre, anemia, sinusite e ainda dá brilho e balanço aos cabelos, e lá fui eu ao supermercado desesperada pelo potinho de bálsamo da vida (25 conto o maiorzinho).

Como toda pessoa que se ilude facilmente com propagandas exageradas e testemunhos de milagres, aproveitei a primeira tarde livre e comecei a fazer meu tratamento. Segundo uma moça do Youtube que tem Cabelos de Rainha, pode aplicar o óleo no cabelo seco, sujo, molhado ou limpo, tanto faz, e eu fiz a linha preguiçosa e passei nele seco e sujo mesmo. A textura do óleo é incrível e à medida que fui passando, fui sentindo o cabelo ficando mais macio. Nisso minha empolgação cresceu e faltou muito pouco para que eu bebesse o óleo de coco, mergulhasse de cabeça no potinho, passasse na cara e nos dentes. #SouDessasSemNoção


Cabelos de Rainha disse que ficava com o óleo no cabelo por cerca de três horas e como eu adoro bater recordes, fiquei quatro. A hora de lavar chegou e eu mal me aguentava de ansiedade, parecia até que tinha feito uma reconstrução da Joico; no chuveiro, já começou a suspeita de que aquilo não sairia do meu cabelo nunca NUNCA mais e eu comecei a ficar tensa, afinal eu sou uma dessas pessoas que vivem perigosamente e adoram testar novidades em dias de eventos, de modo que em duas horas eu tinha que estar em uma festa com o cabelo apresentável. Já estava na quarta mão de xampu quando considerei a possibilidade de lavar uma quinta vez com detergente, mas resisti à tentação e segui para o condicionador como Cabelos de Rainha havia me instruído  “Lave normalmente” (só esqueceu de dizer que é meio vidro de xampu por lavada). Sequei o cabelo com a toalha, dei aquela batida de secador básica para acelerar o resultado e o resultado foi ... o cabelo de Mercur, o Homem da Borracha. Você não conhece Mercur, o Homem da Borracha? Vou postar uma foto minha depois do óleo de coco e vocês vão se lembrar dele.






O aspecto não foi de todo ruim. Deu bastante brilho e fez até que ia ficar sedoso, mas meu exagero em passar mais óleo do que devia impediu. Sobre deixar os cabelos mais lisos, nada a ver. Meu cabelo continua com as mesmas ondas revoltas, mas um pouco mais macias. Numa nota de 0 a 10, classifico o resultado do tratamento dessa tarde como 7. Bom, mas nada de especial. Mais negocio que passar óleo de coco no cabelo, é lavar com a água milagrosa de São Paulo, você já sai do banheiro com o cabelo de capa de revista, mas esse mundão de meu Deus é grande demais e em Teófilo Otoni a água faz o efeito contrário e milagre mesmo é um cabelo ficar bonito aqui. De qualquer modo, eu ainda não desisti. O anjo me disse que tudo bem ler livros enquanto toma sol, hidrata os cabelos, faz ritual de beleza, conteúdo e vaidade não precisam ser inimigos. Agora vou fazer um cronograma capilar, um mapa astral, vou nutrir, hidratar, umectar, cortar, vou passar Geleia Real se disserem que fica bom, e de tempos em tempos venho aqui, fazendo a linha Cabelos de Rainha, contar as novidades para vocês.


Um beijo e uma borrifada de Uniq One em vocês. 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Navegar, fantasiar, escolher


Para que o mundo pare de dar tantas voltas, para que eu possa enxergar um palmo diante de meu nariz sem me sentir zonza, para que siga em frente em terra firme, é preciso tomar decisões e apresentar de imediato meu “Sim, por favor”, ou rejeitar com um educado “Não, obrigada”. Sei, sei que ninguém pode viver em cima do muro dividido entre dois extremos, duas saudades, duas paixões, logo, é preciso escolher a quem se presenteia com o consentimento e a quem se magoa com a negativa. Mas vocês bem sabem que eu nunca fui muito boa em escolher. 
Só em cardápios, menus e cartas de bebidas, sou capaz de passar horas prolongando decisões. Não que eu cultive algum sadismo em relação a garçons e por isso goste de vê-los, entre sofrimento e ódio, voltando à minha mesa com bloquinho e caneta... Longe de mim. Eu só gosto de adivinhar os sabores em minha mente, fantasiar diante de tantas possibilidades, não me comprometer com qualquer uma das iguarias para ter todas à minha disposição, e por que não? Talvez ter o menu à nossa frente seja a melhor parte de qualquer escolha: há um seguro distanciamento do erro.

E errar... Ah, nisso eu sou boa. Não tanto pelas próprias escolhas, mas pelo momento em que as faço. Para a noite mansa de quinta-feira eu recomendaria a mim mesma o pedido de sempre, feito com meus ingredientes favoritos e temperado com pitadinhas de controle sobre o resultado. Terminaria satisfeita e feliz com minha iguaria rotineira, tão gostosa quanto previsível. Mas há esse gênio louco dentro de mim que se recusa a antever o final da história, e por isso, quer transformar a qualquer custo quinta-feira mansa em sábado à noite, quem sabe assim não lhe sobra diversão. Esse gênio me convenceu a deixar de lado o usual para mergulhar novamente no menu cheio de possibilidade diante dos olhos, “Afinal, fantasiar é preciso”, pude ouvi-lo sussurrar.

Mas quem vive de fantasia, não é mesmo?

O prato novo chegou e não me agradou aroma, tampouco apresentação. Que fazer senão se fazer de cega, surda, muda e engolir a contragosto a mudança que outrora escolhi? Procurando por borboletas e boas surpresas saboreei decepção, e o gosto exótico do novo não combinou em nada com a simplicidade de minhas preferências. Não que fosse de todo ruim, talvez caísse bem em uma noite de aventura, talvez escolhi mal o vinho... Ou quem sabe fosse outra a fase da minha vida, quando ainda não chegasse a hora de estar a procura de um ninho.
Tem um pouco disto e daquilo: uma ótima escolha errada para o momento certo, ou o inadiável momento errado para fazer a escolha certa.

Mas que posso eu fazer, senhores garçons, se sou irremediavelmente viciada em possibilidades? Não me venham ainda com seus bloquinhos e canetas, pois tanto não escolhi o que cairá bem nesta noite de quarta-feira, como não sei dizer para onde vão minhas negativas e meus consentimentos. Por ora, só tenho uma confissão e uma certeza sobre fantasias e realizações: é preciso cuidado ao decidir-se sobre o pedido, pois ninguém gosta de comer uma coisa, desejando sentir o sabor de outra.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Para (uma certa) Dona Pequetita


Não me lembro exatamente de como foi que Dona Pequetita entrou em minha vida –se topei com ela no supermercado carregando uma bacia cheia de sonhos na cabeça ou se foi no velório de um parente distante-, sei que quando dei fé, já havia me habituado ao gosto de seus bolos sempre solados e das sopas bem chegadinhas no sal. Aliás, “Sá-l”, Dona Pequetita sempre dizia acentuando a ponta da língua no céu da boca, acrescentando tantos "L" quanto possível no final de cada palavra. 
Finá-l-l-l.


Conhecendo-a melhor, descobri que era cheia de estranhas manias e havia muito pouco em Dona Pequetita que se pudesse chamar de comum. Suas preferências por acomodações pura excentricidade enchiam-na de orgulho e assim, tal e qual uma engenheira, discorria me explicando como é que erguera seu barracão a partir de grade de portão enferrujado, lona velha e tábua carcomida. E essa construção, que enchia os olhos de Dona Pequetita, também emprestava embaraço aos filhos quando explicavam “E você vendo, né? Um casarão deste tamanho e mamãe com essa mania de dormir no quintal...”.


Modesta como sempre fora a vida toda, Dona Pequetita detestava grã fineza e o trocado que recebia de sua aposentadoria sustentava-a plenamente: nunca precisava pedir nada a ninguém. Eu perguntava então sobre o dia de receber seu aposento, se não tinha medo da bandidagem que estava demais por esses dias, e minha heroína ria, desafiadora, respondendo-me cheia de audácia “Mas quem é!”; revirava sua bolsinha de lona preta e de lá tirava um Baygon enorme, enquanto explicava “Tem cal-l-l-do de pimenta aqui. Eu rumo nos zói deles!”. Não bastasse aquele spray improvisado, Dona Pequetita sempre carregava um bastão de ferro embrulhado em um tecido estampadinho e era por isso que quase ninguém dava conta de carregar sua bolsinha de lona (a não ser ela mesma, é claro). Em contrapartida, Dona Pequetita não pensava que ninguém além dela fosse capaz de se defender sozinho, por isso dizia sempre quando os netos e os filhos se despediam “Vai com Deus e toma cuidado que esse povo de hoje ta muito ruim”. Ah, como não dizer que ela sempre soube de tudo e via além, mesmo com seus olhos acinzentados? 


De tanto ler, o que aprendeu depois de grande e sozinha, tornou-se uma extraordinária contadora de histórias e eu ouvia os mesmos casos repetidas vezes, quando me transportava para a década de trinta, quarenta, sessenta, tamanha era a riqueza de detalhes de seus contos. Quando, entre uma narrativa e outra, esquecia-se de uma data ou do nome de uma pessoa que conheceu na folia de reis de mil novecentos e trinta e sete, sobressaltava-se e me confessava temerosa que morria de medo de estar “pegando” aquela doença que fazia esquecer das coisas. “Que doença, Dona Pequetita?”, “Ah, a do nome alemão!”. E eu morria de rir, afinal, aos noventa não deve ser muito fácil se lembrar do dia e ano em que Getúlio Vargas morreu; mas num segundo ela me interrompia e dizia animadíssima “Foi no dia do casamento de Glória!”, e pronto, lá estava ela desfiando datas e detalhes que nenhum professor de História foi capaz de enfiar em minha cabeça por mais de uma semana. 
Aniversários? Quem seria o Facebook para ter a precisão de Dona Pequetita.


Mas o mais excêntrico dela, além de tudo mais e do descontentamento em tomar banho que alguns de seus netos herdaram, era sua velha amizade com a morte. Uma vez cheguei ao seu barracão e lá estava Dona Pequetita, miúda e sorridente, espinicando um pedaço de isopor dentro de uma musselina preta forrada de florzinhas brancas.

-Que é isso, Dona Pequetita? –perguntei mal antevendo a resposta.

-Ah..! –ela sorriu tão empolgada quanto podia ser –Isto aqui é um travesseiro pro cês botarem em meu caixão quando eu morrer.

Arregalei os olhos e ela explicou:

-Eu quero ficar com a cabeça no a-l-l-to. Ai docê’s de me deixar com a cabeça pra trás, esticada, sem ver nada. Ih, vai ser uma festa boa... Capaz que eu danço até uma rumba!

E rindo-me sem graça entre uma e outra menção de Dona Pequetita à morte, percebi que ela planejava a sua de verdade. Dona Pequetita pagara por seu próprio terreno no cemitério e quando quitou a última prestação parecia estar tão alegre quanto quem termina de quitar a casa própria. Velórios eram os únicos eventos que se recusava a perder, e dependendo da importância do finado, ela até tomava banho. O marido, a quem ela sempre se referia carinhosa e simploriamente como “O véi” foi antes dela e Dona Pequetita, depois de seu luto, ficou um veneno reclamando e maldizendo-o. Mas experimentasse você reclamar dele, ah... Esta era uma atribuição exclusivamente sua e era de tanto defender o marido, que terminava por adoçar-se, cantando lamuriosa: -É porque bem sei que quem tanto amei não verei jamais...


Mas Dona Pequetita era ser humano e também tinha seus medos e suas tristezas. Depois de dobrar a curva dos noventa, foi que perdeu de vez a visão e passou a desejar que se apressasse o encontro com o Véi do outro lado da vida. Os filhos e netos então brigavam e fechavam a cara –que ela já não podia mais reconhecer ou notar as mudanças do tempo -; eram incapazes de compreender que para Dona Pequetita, em sua modesta existência, não havia nada mais maravilhoso do que admirar as criações de Deus. Outrora, se demorava observando as lagartas que caiam do pé de coco, as formigas carregando grãos de arroz, casinhas de João-de-barro e ipês floridos; parava em tudo quanto é estrada para olhar as árvores e esperava ansiosa o surgir da lua toda noite no céu enquanto comentava nos dando simpáticos safanões “Espia, Marcolino, como ta cheia!”. E admirava e admirava bendizendo a Deus por tanta perfeição. 
Ah, nós não poderíamos entender e ainda que tentássemos... Dona Pequetita aprendera a colorir sua vida de menina da roça com olhares longínquos pela natureza e em tudo mais onde via Deus, era injustiça exigir que ela, aos noventa anos, enxergando tanto cinza, tanto preto, tanto nada, ainda conservasse sua alegria de viver.


E eu fiquei ruim da vida quando descobri que minha amiga estava assim tão jururu. Tentei agradar-lhe de todas as maneiras, levei fitas, rádios, doces, panelinhas de alumínio e jogos, mas ela estava amuada e deprimida dizendo sem me olhar, tampouco ver “Deixa aí, meu fi...”.


O acontecer da vida fez com que meu caminho fosse para bem longe do norte de Minas e no dia em que fui me despedir de Dona Pequetita, não contive minhas lágrimas. Chorei abraçado àquela minha avó tão sui generis e implorei para que esperasse ainda minha última visita antes que fosse a hora dela partir, no que ela me respondeu, dando de ombros com aquele seu divertido ar desinteressado “Eh Eh..!”. Confesso que até o último aceno de adeus esperei que Dona Pequetita fosse derramar algumas lágrimas também, se comover um tantinho que fosse, dizer com a voz embargada que sentiria muita saudade de mim, mas a senhorinha apenas cruzou as mãozinhas para trás, empertigada e sorriu com seus dentes todos iguais “Vai com Deus e cuidado com a bandidagem!”.


Não vou dizer que não fiquei chateado diante da insensibilidade de minha avó emprestada; talvez sua verdadeira comoção fosse reservada para os parentes de sangue e não para um estranho. Mas para meu alívio, depois descobri que ninguém, nem parente nem amigo, havia visto Dona Pequetita chorar ou até mesmo fazer como se fosse. Eu me perguntava: como é que conseguia se manter tão serena e impassível diante dos infortúnios e desencontros da vida? E via-a  me respondendo enquanto sacudia a mão no ar “Deixa, deixa que um dia cê entende...”.

Ah, como eu gostaria de trazer aqui o final feliz que minha adorada amiga merece. Queria contar que ela voltou a ver as cores do mundo e o rosto dos netos, contar que ela já não se queixa da velhice e do tédio, contar que não há um só dia que não passe cantarolando Francisco Alves e sintonizando seu radinho para ouvir a missa de sete da manhã. Mas essa vida é cheia de mas e Dona Pequetita já sabia disso muito antes de mim, e assim levava seus dias como todos nós (jovens ansiosos e cansados) contando um a mais, contando um a menos. 

E de dia a mais, dia a menos, de derradeiro em derradeiro ano, finalmente reencontrei minha heroína em sua festa de aniversário de noventa e tantos, onde os filhos corriam pra lá e pra cá tentando fazer suas vontades e as netas, faceiras que só, chamavam-na "Dona Highlander, vem tirar foto com a gente!", no que ela respondia cheia de braveza "Mas custa..!". Dona Pequetita estava do mesmo jeitim de quanto nos despedimos e eu, piegas e derretido como sempre sou, senti um nó na garganta ao avistá-la naquele mundaréu de gente. Ela ralhava e resmungava e fazia caretas, xingando Sil-l-l-vana aqui e Maria do Carmo acolá. Quando uma das sobrinhas abraçou-a desejando seus sinceros parabéns e fazendo umas preces a Nossa Senhora de Fátima, pensei que Dona Pequetita fosse lhe dar uns safanões e repreender "Ih diabos! E eu lá gosto dessa abraçação besta?". Mas ela estava feliz demais para se fazer de rogada. Esquecia-se por um instante de suas caretas e se punha a sorrir satisfeita, apreciando o som do acordeão ao fundo e sentando sá-l em seu prato de canjiquinha. 


Aproximei-me e cumprimentei a dona da minha saudade com a frase da qual tanto senti falta por esses anos todos e terminava por resumir, de um jeito ou de outro, a ternura, o amor, o respeito e a admiração que marejavam meus olhos e embargavam a voz:


-Bença, Vó Pequetita. Ta boa?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

"NUNCA TIVE OUTRA IDADE SENÃO A DO CORAÇÃO"



Dizem as más ou boas línguas que hoje completo vinte e sete anos. Vinte e fucking sete. VINTE E SETE. Você ta duvidando? Ah, obrigada, gentileza de sua parte, mas eu também tô duvidando. Disseram-me que as pessoas de vinte e sete anos são adultas, tem metas, trabalham duro, vivem com os dois pés na realidade e perdem os olhos sonhadores. Eu olhei desconfiada e na véspera do meu aniversário pensei “É, sei não... Só uma espécie de mágica para me deixar assim...”. Disseram-me que, nossa, ia voar depois dos dezoito! E sabe o que eu disse? “Mas que gente chata que repete discurso dos outros. Voa para uns, para mim não”. Agora, eu me pergunto: será que tomei Dramim demais nessa viagem dos dezoito até aqui e o comissário de bordo me sacudiu, depois de o avião já ter pousado, dizendo “Moça, moça, acorda. Chegamos”?

Well, well, well, vamos reconhecer o solo de se ter vinte e sete.

“-Por aqui não mudou muita coisa, garota de Dezessete. –começo dizendo no rádio. –Ou mudou demais e eu ainda to zonza? Câmbio.

Então eu de dezessete, diretamente saída de horários duplos de Inglês e de tardes com as amigas ensaiando coreografia de Moulin Rouge (sim, eu fazia isso aos 17), pergunto: ta, Paula, mas deu tudo certo por aí?
Olha, amiga, é o seguinte: tenho uma notícia ruim e uma boa. A ruim é que você ainda não se casou. A boa é que você ainda não se casou. Iiiih! Calma com essa pirraça porque eu não tenho a paciência da sua mãe! Eu sei, eu sei... Eu já devia estar magra, alta (qual era seu plano, colocar uma platina de metal de dez centímetros nas canelas?), casada com o Henrique, aquele Defensor Público bonitão com quem topei na rua, exibindo o brilhante Tiffany que ele me deu no último Natal em Nova York, eu sei... Poxa, te dizer que eu até me esforcei, mas os Henriques tem sido um tanto quanto idiotas, as dietas são de matar, os brilhantes da Tiffany estão um absurdo (vá logo se contentando com um Vivara) e férias em Dezembro? Garota, você não tem ideia do que significa ter um trabalho.

Mas preciso te dizer que fizemos muito mais do que você esperava e sem precisar do suor de senhor ninguém. É isso mesmo: aos vinte e sete estamos on our own olhando a cartela de cores para pintar a parede do quarto, ou o próximo destino para viajar pelo mundo, ou conhecendo o novo Henrique, sem muita pressa. A sensação olhando o mundo daqui é muito boa e estamos em um terreno relativamente seguro, a não ser...

A não ser quando vem as crises de meia idade, e a culpa, eu preciso dizer, é toda desse pessoal que se casa, tem filhos e casa própria tão cedo. Gente, vocês estão me confundindo. Estou lá, feliz e satisfeita rindo de piadas do Le Ninja e dizendo aos meus amigos “Nossa, você precisa ver um cara comendo um pote de Nívea achando que é iogurte”, quando me surge no Facebook um “O colega que cursou ensino médio com você acabou de se casar com uma jovem da mesma idade e agora eles estão encarando, com olhar de reprovação, sua última foto do réveillon, abraçada a uma turma de rapazes que conheceu na balsa para a ilha”. Pessoas adultas: parem com isso! Eu ainda não dou conta.

Certo que aos dezessete eu também me via no futuro meio artista prodígio incompreendida, feito Janis Joplin. Como isso, sem ser uma deusa dos palcos, sem cantar ou tocar qualquer instrumento? Sei lá, só achei. É uma daquelas certezas que habitam nossa mente, como a de que aos trinta e sete eu estarei passando um verão em Bora Bora. Mas calma que vamos engatinhando; coisas que nunca nos imaginamos fazendo antes são bem reais agora, por exemplo, escrever textos que não só são postáveis, como também são apreciados, curtidos e compartilhados. Ah –prenda a respiração- sabe aquele seu sonho adolescente de conhecer Paris e chorar de emoção ao ver a torre Eiffel num sábado à noite? Então, pode riscar aí de sua agendinha Capricho porque fizemos essa aventura com duas de nossas melhores amigas: foi muito melhor do que o sonho.

Sobre o passado, preciso admitir que morro de saudade de você, garota magrela de dezessete, e de seus chiliques e dramas ouvindo Oasis, morro de saudade de sua despreocupação ao enfiar a cara num prato de brigadeiro, ou da sua inocência em acreditar que as pessoas ruins não cruzariam seu caminho, mas te tranquilizo e informo que você não ficou presa aí no passado; temos nossos dramas, ainda choramos ouvindo Oasis, comemos brigadeiro (prometendo uma corrida que nunca vai se realizar no dia seguinte) e até cruzamos com pessoas más, mas nada que uma boa dose de bom humor e proteção divina não resolva. Ninguém insiste em brigar sozinho ou importunar alguém que não tem nada a oferecer além de sorrisos. De mais a mais, como eu dizia, somos a mesma jovem de risada escandalosa de sempre, pois, como li em algum lugar dia desses “Nunca tive outra idade senão a do coração”. Assim, vamos nos sentir com trinta e cinco em um dia qualquer desses, noutro vamos fazer um tererê no cabelo e não passaremos de dezoito, durante um breve momento de sabedoria nos julgaremos com cinquenta e tantos, e de tempos em tempos, em momentos excepcionais, contarão as más ou boas línguas -ou formulários de repartição pública- quais são nossos verdadeiros números e é somente assim é que ter vinte e fucking sete anos pode me assustar, sendo números.

Terreno reconhecido, observações feitas... Essas são as notícias do meu presente e do seu futuro, garota de dezessete anos e acho que estamos nos saindo até bem nesse primeiro dia. Há ainda 364 para nos superarmos e quem sabe nos tornamos a mulher magra, adulta e alta do futuro (alta ainda não entendi como). Quer me perguntar algo? Eu preciso desligar, há um monte de coisa para fazer e nosso aniversário ainda caiu em uma segunda-feira. Depois me conta as notícias do passado. Ps: E os namoradinhos? Hihihi.

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2006  Enviado via MSN


"-Ah, não, não, acho que já tenho todas as respostas. E... Eh... A propósito, feliz aniversário pelos vinte e sete e parabéns por tudo mais. Eu sabia que, de uma maneira ou de outra, você se tornaria a mulher que quero ser. Continue em frente, acho que de sua maneira meio louca, há um plano a seguir.

Ps: Nunca pergunte “E os namoradinhos”. Quase destruí toda a imagem de jovem legal e descolada que tinha de você e te imaginei com um suéter Pink bordado “Tia Paula”. Fora isso, ta tudo certo. Um beijo para você aí no futuro. Câmbio, desligo."