segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

"NUNCA TIVE OUTRA IDADE SENÃO A DO CORAÇÃO"



Dizem as más ou boas línguas que hoje completo vinte e sete anos. Vinte e fucking sete. VINTE E SETE. Você ta duvidando? Ah, obrigada, gentileza de sua parte, mas eu também tô duvidando. Disseram-me que as pessoas de vinte e sete anos são adultas, tem metas, trabalham duro, vivem com os dois pés na realidade e perdem os olhos sonhadores. Eu olhei desconfiada e na véspera do meu aniversário pensei “É, sei não... Só uma espécie de mágica para me deixar assim...”. Disseram-me que, nossa, ia voar depois dos dezoito! E sabe o que eu disse? “Mas que gente chata que repete discurso dos outros. Voa para uns, para mim não”. Agora, eu me pergunto: será que tomei Dramim demais nessa viagem dos dezoito até aqui e o comissário de bordo me sacudiu, depois de o avião já ter pousado, dizendo “Moça, moça, acorda. Chegamos”?

Well, well, well, vamos reconhecer o solo de se ter vinte e sete.

“-Por aqui não mudou muita coisa, garota de Dezessete. –começo dizendo no rádio. –Ou mudou demais e eu ainda to zonza? Câmbio.

Então eu de dezessete, diretamente saída de horários duplos de Inglês e de tardes com as amigas ensaiando coreografia de Moulin Rouge (sim, eu fazia isso aos 17), pergunto: ta, Paula, mas deu tudo certo por aí?
Olha, amiga, é o seguinte: tenho uma notícia ruim e uma boa. A ruim é que você ainda não se casou. A boa é que você ainda não se casou. Iiiih! Calma com essa pirraça porque eu não tenho a paciência da sua mãe! Eu sei, eu sei... Eu já devia estar magra, alta (qual era seu plano, colocar uma platina de metal de dez centímetros nas canelas?), casada com o Henrique, aquele Defensor Público bonitão com quem topei na rua, exibindo o brilhante Tiffany que ele me deu no último Natal em Nova York, eu sei... Poxa, te dizer que eu até me esforcei, mas os Henriques tem sido um tanto quanto idiotas, as dietas são de matar, os brilhantes da Tiffany estão um absurdo (vá logo se contentando com um Vivara) e férias em Dezembro? Garota, você não tem ideia do que significa ter um trabalho.

Mas preciso te dizer que fizemos muito mais do que você esperava e sem precisar do suor de senhor ninguém. É isso mesmo: aos vinte e sete estamos on our own olhando a cartela de cores para pintar a parede do quarto, ou o próximo destino para viajar pelo mundo, ou conhecendo o novo Henrique, sem muita pressa. A sensação olhando o mundo daqui é muito boa e estamos em um terreno relativamente seguro, a não ser...

A não ser quando vem as crises de meia idade, e a culpa, eu preciso dizer, é toda desse pessoal que se casa, tem filhos e casa própria tão cedo. Gente, vocês estão me confundindo. Estou lá, feliz e satisfeita rindo de piadas do Le Ninja e dizendo aos meus amigos “Nossa, você precisa ver um cara comendo um pote de Nívea achando que é iogurte”, quando me surge no Facebook um “O colega que cursou ensino médio com você acabou de se casar com uma jovem da mesma idade e agora eles estão encarando, com olhar de reprovação, sua última foto do réveillon, abraçada a uma turma de rapazes que conheceu na balsa para a ilha”. Pessoas adultas: parem com isso! Eu ainda não dou conta.

Certo que aos dezessete eu também me via no futuro meio artista prodígio incompreendida, feito Janis Joplin. Como isso, sem ser uma deusa dos palcos, sem cantar ou tocar qualquer instrumento? Sei lá, só achei. É uma daquelas certezas que habitam nossa mente, como a de que aos trinta e sete eu estarei passando um verão em Bora Bora. Mas calma que vamos engatinhando; coisas que nunca nos imaginamos fazendo antes são bem reais agora, por exemplo, escrever textos que não só são postáveis, como também são apreciados, curtidos e compartilhados. Ah –prenda a respiração- sabe aquele seu sonho adolescente de conhecer Paris e chorar de emoção ao ver a torre Eiffel num sábado à noite? Então, pode riscar aí de sua agendinha Capricho porque fizemos essa aventura com duas de nossas melhores amigas: foi muito melhor do que o sonho.

Sobre o passado, preciso admitir que morro de saudade de você, garota magrela de dezessete, e de seus chiliques e dramas ouvindo Oasis, morro de saudade de sua despreocupação ao enfiar a cara num prato de brigadeiro, ou da sua inocência em acreditar que as pessoas ruins não cruzariam seu caminho, mas te tranquilizo e informo que você não ficou presa aí no passado; temos nossos dramas, ainda choramos ouvindo Oasis, comemos brigadeiro (prometendo uma corrida que nunca vai se realizar no dia seguinte) e até cruzamos com pessoas más, mas nada que uma boa dose de bom humor e proteção divina não resolva. Ninguém insiste em brigar sozinho ou importunar alguém que não tem nada a oferecer além de sorrisos. De mais a mais, como eu dizia, somos a mesma jovem de risada escandalosa de sempre, pois, como li em algum lugar dia desses “Nunca tive outra idade senão a do coração”. Assim, vamos nos sentir com trinta e cinco em um dia qualquer desses, noutro vamos fazer um tererê no cabelo e não passaremos de dezoito, durante um breve momento de sabedoria nos julgaremos com cinquenta e tantos, e de tempos em tempos, em momentos excepcionais, contarão as más ou boas línguas -ou formulários de repartição pública- quais são nossos verdadeiros números e é somente assim é que ter vinte e fucking sete anos pode me assustar, sendo números.

Terreno reconhecido, observações feitas... Essas são as notícias do meu presente e do seu futuro, garota de dezessete anos e acho que estamos nos saindo até bem nesse primeiro dia. Há ainda 364 para nos superarmos e quem sabe nos tornamos a mulher magra, adulta e alta do futuro (alta ainda não entendi como). Quer me perguntar algo? Eu preciso desligar, há um monte de coisa para fazer e nosso aniversário ainda caiu em uma segunda-feira. Depois me conta as notícias do passado. Ps: E os namoradinhos? Hihihi.

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2006  Enviado via MSN


"-Ah, não, não, acho que já tenho todas as respostas. E... Eh... A propósito, feliz aniversário pelos vinte e sete e parabéns por tudo mais. Eu sabia que, de uma maneira ou de outra, você se tornaria a mulher que quero ser. Continue em frente, acho que de sua maneira meio louca, há um plano a seguir.

Ps: Nunca pergunte “E os namoradinhos”. Quase destruí toda a imagem de jovem legal e descolada que tinha de você e te imaginei com um suéter Pink bordado “Tia Paula”. Fora isso, ta tudo certo. Um beijo para você aí no futuro. Câmbio, desligo."




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O mar é ali



Para mim, às vezes, o mundo acaba em Minas Gerais. Acaba neste pedaço de sertão onde a gente, que tanto sonha com o mar, persiste velhando, como dizia Guimarães Rosa, levando a vida tão vagarosa e calma quanto nosso próprio sotaque. Para mim, às vezes, o mundo termina na modéstia de nossas ladeiras e ruas estreitas, por onde seguimos sempre em linha reta, olhando para os lados sem, no entanto, ver parte alguma. Para mim, às vezes, o mundo termina dentro de mim e de minhas saudades.
Saudade que chega a doer de lugares que nunca visitei, saudade que chega chorar de lugares pelos quais me apaixonei, como se parte de minhas outras vidas estivessem sempre entre uma distância e outra: aqui, mas sempre lá, lá mas sempre aqui. Sinto falta de ter o mar perto, sinto falta da Lua (ou da Espanha?), sinto falta do meu Mutum, e sinto falta de gente que já amei e gente que nunca vi. A sina de um coração que nasceu para ser dividido e amar as distâncias –amar às distancias -, é se perguntar quando é que se sentirá completo se não pode se dividir, também, em corpos.
Lembro-me do pigmeu do conto de Chesterton que se maravilhou diante de um pequeno jardim, enquanto o gigante, Paulo, deu uma volta na Terra em apenas alguns minutos e por fim adormeceu, entediado. Minha pequenez faz do mundo uma imensidão a ser desbravada, seja outro continente, seja logo ali em minha esquina, ‘Basta abrir os olhos, bicho do mato’, ouço alguém sussurrar, basta caminhar em linha reta, mas ver além de olhar.
O mundo termina dentro de mim, onde guardo as lembranças mais vivas e os amores mais intensos, mas reescrevo e digo o contrário, pois o mundo também começa aqui onde, feito Fernando Pessoa, ainda cultivo todos os sonhos.
É mais ou menos assim mesmo. Cada um tem seu mar dentro de si.


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PARIS, FINALMENTE!

Então, onde foi que eu parei?
É isso mesmo gente, minha rotina é tão agitada –NOT- que estamos em Setembro e somente agora é que eu vou escrever sobre minhas extraordinárias férias de Abril. Quer dizer, foi tanta coisa linda de ver e tanta aventura que o post tá mais pra álbum comentado. Então Chuvosa Turismo que acompanha o Garota da Contracapa, aperta o cinto de segurança, prepara para a decolagem, dá o play em La Vie En Rose e bora dar umas voltas pelas ruas de Paris!


“Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome...”

Quando desci do trem, na maravilhosa estação de Gare Du Nord, me senti a própria mocinha de novela das 6 que por razões desconhecidas deixa um passado misterioso para trás e vai em busca de seus sonhos numa cidade grande. Lembrei-me também de quando tinha dezesseis anos e depois de bater muitas portas, chorar ouvindo Good Charlotte, terminava dizendo que iria fugir para Paris e trabalhar como bibliotecária. Ah, que sonhadora eu aos dezesseis né. Porque pelormor: que estudante adolescente tem dinheiro pra fugir pra PARIS?
Quando saí da estação me deparei com a Rue Dunkerque abarrotada de viajantes, cafés, luzes, carros, ar parisiense... Tem sensação mais maravilhosa do que quando a realidade supera todas as suas expectativas? 

                         Quase tive LER no ombro de tanto tirar selfie.

Então vamos falar de coisa boa e fazer aquele JABÁ inesperado de programa de culinária? O hostel Saint Christopher, gente, vamos mudar pra lá. É ótimo! (Pessoal do hostel, vem cá ver esse merchan!).
Primeiro que é a três quarteirões da estação Gare Du Nord e de lá você pode pegar um metrô para qualquer parte de Paris ou seguir à pé para a famosa Montmartre. No meu caso foi ótimo porque cheguei sozinha na cidade por volta das 19h e fiz uma caminhadinha saudável, de boas, com a mala faltando uma rodinha sem nem fraturar o braço. Recepção também aprovada, os jovens e educados atendentes eram muito solícitos e falavam no mínimo dois idiomas. Não me esqueço de um deles que fez a gentileza de tirar a minha mala pesando trinta quilos de cima de um armário e eu disse “Cuidado, ta meio pesada”, então o rapaz, absurdamente bonito e musculoso me olhou de lado, sorriu e disse: “Dont worry, Im from Scotland”.


                                                    Sin palabras

As acomodações também me surpreenderam de uma maneira positiva. Eu nunca tinha ficado em hostel, nunca havia dividido quarto e imaginei meio que uma cela de presídio e gírias tipo ‘whatsup nigga’. Talvez eu tenha tido sorte, mas as outras três garotas do quarto (que tinha banheiro privativo e recomendo que façam essa escolha também!) eram reservadas e educadas, de modo que a gente só interagia mesmo quando tava a fim. Proxima viagem sem sombra de dúvidas vou escolher um hostel de novo porque é mais barato, tão confortável quanto hotel e o melhor: a gente se mistura com gente jovem..!

Nessa mesma noite em que cheguei, tomei um banho e me troquei na velocidade da luz para poder dar uma passeada em Paris logo e tirar foto logo, postar no Insta logo, matar minhas amigas logo. Para cada café, há um sex shop, e para cada farmácia, há um supermercado, então já defini para vocês como é o comércio ao redor da estação. O relógio marcava nove da noite, mas acredite se quiser, havia acabado de escurecer então fiquei de boas caminhando ali, me achando A escritora perdida em Paris, até procurar um lugar para comer. Depois voltei para o pub do hostel, o Belushis, que é ABOSULTAMENTE INCRÍVEL e, diante da falta de palavras para descrever como eram as noites nesse lugar, tem esse vídeo aqui ó e esse aqui, com as migs:



Como o mundo é uma cidade do tamanho de Teófilo Otoni, é claro que logo fiquei amiga de uma turma de brasileiros e de argentinos com camisa de time e também é claro que fomos os últimos a deixar o pub, porque pra quê limite pro pessoal da America Latina né.

                                                 Um abç pra galera de Tchó Tchó

Sobre Montmartre, como vou explicar sem parecer exageradamente romântica e piegas? Já sei: fecha os olhos, respira bem fundo e se imagine passeando por Paris em uma manhã ensolarada. Aposto que nesse devaneio você pode ouvir um acordeão sendo dedilhado ao fundo, algumas motonetas passam zunindo pelas vielas, viu algumas moças faceiras dizendo animados “Bonjour”, baguetes em cestos nas esquinas e flores nas calçadas. Ah, talvez você tenha visto um ou dois carrosséis e construções antigas, mas bem conservadas, de sobrados sobre os cafés. É exatamente isso e a realidade, como eu já disse, apenas superou esse sonho.



Senta Que Lá Vem História: Montmartre é a parte mais viva de Paris, não à toa, era o recôndito de incríveis artistas no século XIX e XX, como Monet, Toulouse-Lautrec, Cèzanne... (Ah, nostalgia de lembranças que não vivi). O nome, Monte dos Martírios, é na verdade uma referência a cristãos mártires que foram torturados e mortos subindo a colina (nunca soube disso!). E como eu já falei algumas vezes, Montmartre é cenário do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, um dos meus preferidos desde sempre, então imagina como foi mágico caminhar pelos mesmos degraus onde Nico foi atrás de sua amada Amélie?


               
              Carrossel do filme Amélie Poulain, na praça de Sacre Coeur

Uma senhora cantando GALOPEIRA nas escadarias de Sacre Coeur, não podia faltar hahaha Aqui ó!



Basílica de Sacre Coeur, maravilhoooosa, construída no final do século XIX. E essa minha visita foi na quinta-feira da semana santa, então a basílica estava mais decorada, mais cheia, mais emocionante que nunca..!


AGORA SEGURA O PAUSE QUE EU AINDA VOU VOLTAR EM MONTMARTRE COM MINHAS MIGAS NO PRÓXIMO CAPITULO.

Então continuei meu passeio por ali mesmo e, honrando minha mãe e minhas tias Rosana e Zulmira, fiz umas comprinhas na versão parisiense da loja Marisa; lá ela se chama Tati, é um pouco maior (são vários quarteirões de loja e é estranhíssimo quando te mandam atravessar a rua para procurar uma peça de roupa!) e fica no bairro Barbè, vizinho de Gare Du Nord e estranhão estilo Bronx, mas ok se você andar de cabeça erguida e com cara de “Whatzup fellas”. Comprei algumas luvas meio descartáveis lá, mas talvez tenha sido azar. Vai saber.

Não vou negar que passei alguns medinhos por ser uma turistona que só sabia perguntar o preço da cerveja em francês caminhando sozinha nessa região de Paris. Em um desses passeios, um cara me seguiu de Sacre Coeur até a estação dizendo “A date, I want a date!” e não parou até que eu disse que ia chamar a polícia. Numa outra, estava eu passando fina e bela olhando para as incríveis sacadas de prédios quando um morador de rua do tamanho de um hobbit levantou DO NADA e começou a me fechar na rua, tipo uma dança do caranguejo e quando eu disse “Excuse moi, excuse moi” e tentei empurrá-lo, guess what, ele me deu uma peitada. Sério. Dessas de jogadores de futebol comemorando gol. Corri léguas sem olhar para trás. Também me assustou um pouco o descaramento dos franceses, é de deixar brasileiro no chinelo. Quando o bebum do boteco te cantar, ao invés de pensar ‘Ai, só no Brasil’, agradece. Pra se ter uma noção, é impossível andar sozinha por alguns quarteirões sem ouvir um sussurro de qualquer coisa no ouvido “Trè-ju quiê- creuer, qui, pur ça”. Numa dessas, eu pude jurar que ouvi um “gostosa”, mas vai saber, eu já tava ficando meio lunática.

E assim findou-se minha saga sozinha. 
Na quarta-feira à tarde, fui eu com a minha mala já toda despedaçada novamente para a estação esperar minhas amigas. Ai gente, sabe aquela cena de filme? Então, eu era a atriz dessa cena. Gare Du Nord apenas sendo linda, o trem vindo de longe, o céu tomando um tom levemente alaranjado, anunciando um entardecer, e a empolgação me consumindo por dentro, afinal, eu veria rostos conhecidos depois de quase cinco dias.



 Mas como eu não vivo em um filme de romance, e sim num de comédia, um homem me abordou e começou a chamar “Mademoiselle! Mademoiselle!”; eu, já traumatizada depois de tantas perseguições, saí correndo, puxando a minha mala, e lá vem o homem “Mademoiselle! Police, Mademoiselle”. Corri mais e por pouco não levo um choque de teiser no pescoço: o cara era policial e teve que me perseguir boa parte da estação. Muito sem graça, expliquei a eles (de repente havia um batalhão ao meu redor e eu já tentava imaginar como é que se dizia “advogado” em francês) que eu estava viajando sozinha, mas minhas amigas chegariam no próximo trem, vindo de Amsterdam e a gente ia voltar pro Brasil COM CERTEZA rs. Eles se postaram do meu lado e de tempos em tempos abordavam outros viajantes (obrigada Senhor que não fui só eu!) perguntando as mesmas coisas.

 Por fim, quando o trem de Amsterdam chegou e Lorena e Nathália desembarcaram, perdi toda minha compostura parisiense e bem... Imaginem brasileiros comemorando gol na copa do mundo? Assim nos cumprimentamos. Meus amigos da polícia, que imagino que tenham criado certa curiosidade sobre a veracidade de minha versão, tentaram esconder uns risinhos satisfeitos (debochados?) quando vi as meninas. ...
Assim então, atropelando a ansiedade e as palavras, me despedi de Gare Du Nord, onde deixei parte de meu coração, e quando abri os olhos novamente, estávamos na parte alta da cidade: Trocadero.


                     Juntas em Paris, finalmente!

Update: Quem não leu a Parte I, ta aqui ó Memórias de uma blogueira na Europa

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A Graça está na desgraça... - por Rodrigo Forte


Oi meus queridos leitores, todo mundo bem?

Esta semana vamos de autor convidado aqui no Garota da Contracapa (êêh!). Na verdade, um amigo fez interessantes observações sobre o último texto (aqui) e eu, que logo enxerguei potencial em suas frases filosóficas banhadas nas águas de Ricardo Coiro, propus "Cara, escreve sobre isso!”. Resultado é que ele topou. Então é isso Rodrigo, pode entrar, pegar uma cerveja na geladeira, ligar a TV e ficar à vontade, pois a casa é sua.


Paula L.

A GRAÇA ESTÁ... NA DESGRAÇA



Tenho percebido a carência feminina por homens engraçados, descolados, legais e que parecem não se abater pelas miudezas da vida. O desejo de se relacionar com homens que fazem graça de coisas cotidianas, sem forçar a barra ou sem querer parecer divertidos.

O que muitas ainda não perceberam é que tentar achar o cara que se encaixa nesse perfil em rapazes bem apessoados, com carros legais e que usem roupas que são “propositalmente” sacadas de trás da porta do quarto, não é lá muito sábio. O senso de humor que arde o rosto e dói a barriga, geralmente será atributo de pessoas que, de certa forma, são desprovidas de algumas dessas coisas (ou de todas elas...).

É fácil entender: homens bonitos, charmosos, musculosos, com um sorriso largo e cheio de dentes, não precisam ser engraçados e isso é um vício social, infelizmente. O senso de humor vem do submundo da negação, do limbo do desinteresse alheio e da presença invisível.
Começa a ser trabalhado logo na infância, com a falta de jeito para os esportes e com a negativa da garota da segunda fileira de carteiras. 

Tirar sarro de si mesmo, não ter vaidade para se autodepreciar e saborear o amargo gosto da vida é para poucos. É com a falta de grana, falta de atributos físicos e falta de ser notado que nascem os caras de fácil conversa e de boas gargalhadas.
Facilmente notados em bares, são esses caras que gesticulam e fazem todos rirem ao seu redor. Podem estar rindo dele ou pra ele, mas na verdade ele não liga para o que os outros vão pensar e sim que desse lado do muro ele se encontrou e se viu confortável.

Enfim, fato é que o faro feminino anda meio descalibrado e no fundo, no fundo, talvez elas não enxerguem que os caras divertidos que vivem procurando, continuam sendo os mesmos garotos invisíveis da segunda série, pisoteados pelos bem apessoados de camisa pólo.

Por Rodrigo Forte


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Águas-vivas não tem coração


Pensei em começar com a novidade que havia descoberto na improdutiva tarde de trabalho, mas lembrei-me do último conselho de minha amiga “Você não precisa forçar conversa nenhuma..! O cara te chamou pra sair, quer te conquistar, ele que te envolva com um bom papo, ué!”. Dobrei a língua e voltei-me para o rapaz à minha frente, sorrindo e... Esperando que ele dissesse alguma coisa.

-O que você quer beber? –ele perguntou, vacilando entre a ansiedade e a certeza da conquista.

-Hum... –corri os olhos pelo menu. –Eu sou muito indecisa. Cardápios para mim são verdadeiros desafios. –ri.

O rapaz sorriu, mas parou por aí: nenhuma sugestão de drink, nenhuma piada, nenhum comentário. Continuei um pouco menos segura:

-Um suco de laranja.

Feitos os pedidos, mentalizei o conselho de minha amiga e acomodei-me em minha cadeira, como uma soberana. Estava prestes a lhe lançar um olhar mortal de “Surpreenda-me”, quando o rapaz finalmente abriu a boca:

-Eu sempre quis sair com você. –confidenciou.

Ok, soldado, missão cumprida. Você realmente me surpreendeu.

-Nossa, sério? –ri descontraída, aproveitando-me da situação para fazer aquele charme de mão no cabelo e sorriso de lado –E por que?

-Você é bonita, ué, e por que mais?

Travei os dentes e dei um sorriso forçado.

-É... Vou mudar meu pedido. –eu disse e ele, prontamente, chamou o garçom. –Traz uma caipvodka, por favor?

Haja álcool.

Deixei de lado o conselho de minha amiga e tentei contornar aquela batalha já perdida abordando temas por todos os lados:

-E séries, você curte?

-Ah, não. Não tenho muito tempo pra essas coisas. Trabalho na iniciativa privada, esqueceu?

Oh, sim. Aquela havia sido uma piada. Meu Deus, as coisas realmente podiam piorar.

-Você gosta?

Fogos de artifício: ele havia feito a primeira pergunta depois de quase trinta de minutos. Quis abraçá-lo.

-Nossa, sou absolutamente viciada em Game os Thrones! Já vi todas as temporadas, mas agora estou lendo os livros porque são sempre mais detalhistas, né. Para se ter uma ideia, eu queria fazer uma tatuagem em valiriano –ri sozinha de mim e adiantei em explicar. –É uma língua fictícia da série.

-Você ia tatuar uma língua que não existe? –ele perguntou incrédulo demais para disfarçar.

-Bom, existe na série. –conclui sem graça e novamente nossa mesa foi tomada pelo espaçoso silêncio constrangedor. “Vamos lá, garoto, eu estava quase apaixonada pela ideia que tinha de você..! Não quebre meu coração antes de nos conhecermos...”.

Drinks, pratos, conversas amenas. Os finais de semana, a boate, as pessoas da boate, a cidade, as pessoas da cidade, a rotina, a academia, o trabalho. No final, eu estava exausta de tanto dizer “Hum hum” e “Sei...” e meu interlocutor, tão observador e sagaz era, foi incapaz de notar meu tédio.

-Ouvi dizer que você escreve, é verdade?

Uma fucking brecha. Perguntou é por que quer saber, certo? Errado.

-Sim, costumo escrever, só que não posto ou publico. Só meus amigos mais próximos conhecem esse meu lado. Mas eu realmente gosto disso. Divagar em diferentes ou iguais visões de mundo, conhecer novos conceitos, debater opiniões, falar de amor, de viagens, de vida... Enfim, de tudo um pouco..! –terminei, tão orgulhosa quanto satisfeita com meu discurso.

O rapaz olhava-me de lado, o cenho franzido:

-Você viaja, hein? –ele riu e diante de meu olhar irritadiço tentou consertar. –É que você fala de um monte de coisa muito doida, sei lá, as outras garotas não são assim.  

“Ok, cara, então você me chamou de esquisita”. Eu tomaria aquilo como um elogio? Por Deus, é claro que tomaria. Ser diferente já me fazia insubstituível, talvez não para aquele cara, mas para alguém, com certeza. Lembrei-me da conversa de mais cedo, com os amigos conselheiros. Um deles confidenciara que a realidade era essa mesmo: um universo de jovens mulheres disponíveis e homens tão acomodados à grande oferta que sequer se importavam em manter um papo legal. “Deus-me-livre”, pensei comigo mesma, enquanto bebia meu restinho de caipvoka, “se o que esse cara procura é simplesmente uma mulher bonita disponível, e nada além disso, talvez eu tenha perdido a minha noite de quinta-feira”.

Q

Virei-me na cadeira e encarei-o por uns instantes, sorrindo, certa de estar prestes a lançar uma sentença que poria fim a qualquer ínfima possibilidade de aproximação entre nós dois:

-G... –chamei e ele me olhou, subitamente interessado. -Você sabia que as lesmas tem trinta e dois cérebros? -Pude ver a esperança esvair de seus olhos e meu nome ser trocado em sua agenda para “Bonita, mas lunática”. -Descobri hoje à tarde, numa improdutiva tarde de trabalho. –conclui orgulhosa.

Pouco depois, quando sugeri que pedisse a conta, ele quase chorou de alívio.

Então, no caminho de casa, olhando pela janela do carro, não pude deixar de fazer uma singela prece:

“Senhor,
Livra-me dos homens sérios, emburrados, apáticos, sobretudo dos entediantes. Afasta também aqueles desprovidos de senso de humor e sagacidade. Agradeço-Lhe por ter me agraciado com uma imaginação tão fértil, mas confesso que estou começando a me sentir só, portanto peço, Senhor, que envie logo o iluminado que me contará, cheio de empolgação, qualquer coisa nova sobre lesmas, ou zebras, ou águas-vivas. Ou me contará qualquer coisa sobre qualquer coisa. Guie esse jovem ao meu lado na busca pelo carisma e aprimoramento das relações interpessoais. E dê a mim, por que não, um pouco de modéstia. É tudo que peço. Amém”.