quinta-feira, 23 de julho de 2015

Numa dessas conversas...





Para ouvir: Wonderwall - Oasis

-André, você acha que um dia vai se casar? –ela começou, depois de dar um gole em sua cerveja.
-Ah, lá vem ela... –o rapaz se mexeu desconfortável no banco. –O que tem em sua bebida?
-Anda, fala logo. É uma pergunta como tantas outras. –ela encerrou em costumeiro tom autoritário. –Odeio essa música, vou mudar.
-Ah, Mari. Sei lá. Nem gosto de falar dessas coisas, a gente acaba atraindo. –André deu uma risadinha, mas Mariana o encarou firme de volta e ele se adiantou em continuar –Certo, vamos lá. Casar? Bom, - passou uma das mãos pela barba espessa. –Acho que para algumas pessoas é algo tão certo como um e um são dois; para outras não passa de uma opção de vida e não me parece errado fazer escolhas diferentes...
Mariana encarou-o, pesando suas palavras, mas virou-se para o banco de trás num repente.
–Já te disse que acho uma pobreza a gente beber cerveja de supermercado dentro do seu carro? –ela abriu o isopor e pegou uma bebida.
-Ih, não começa. Depois que namorou esse último babaca você pegou umas manias de grandeza. Só porque o cara era rico –ele abriu a long neck com uma das mãos –To quebrado esse mês. –completou emburrado. -E larga de ser ingrata que esta é uma das vistas mais bonitas da cidade.
-Você fala como se eu só tivesse namorado ele porque é rico..! –ela adiantou em se defender.
-Te dizer que eu prefiro acreditar que sim viu. Cara estranho da porra, conversava nada com nada, viajava duas horas pra entender suas piadas... Ou, deve ser que era amor mesmo! Hahahaha!
-Detesto como você sempre fala mal dos meus namorados. –Mariana cruzou os braços irritada.
-A culpa não é minha se você só se sente atraída por babacas...
A moça abriu a boca para responder, mas recostou-se no banco, amuada. 
Percebendo que aquilo fora demais, até mesmo para uma brincadeira, André mudou de assunto.
-E você, Mari?
-Eu o quê?
-O casamento, ora! Você quer se casar um dia?
Mariana tomou um gole de sua cerveja e suspirou profundamente. Era amargo de ouvir, mas a verdade é que André estava certo e ela às vezes se via insegura demais para dizer não aos rapazes que lhe apareciam, por mais que não fossem exatamente o que esperava de um namorado. Perdeu os olhos no horizonte. E ainda o casamento, o que é que achava daquilo?
-Não sei, André. Eu fico confusa, sabe. –começou sem tirar os olhos das luzes da cidade –A impressão que tenho é que é a próxima etapa do Jogo da Vida e não tem como seguir em frente sem passar por ela. É o que todo mundo espera que aconteça: um companheiro, uma casa, filhos e um cachorro. –ela mexeu no cabelo, como sempre fazia quando estava triste. -Mas eu...
-Você é diferente, eu sei. –ele completou –E você detesta o óbvio, eu também sei.
-Sim! –ela virou de lado e encarou-o. –É tão óbvio o rumo das coisas! É tão previsível que chega ser entediante..! –terminou exasperada.
-Por outro lado... –André continuou e ela permaneceu em suspense, esperando que ele, mais uma vez, dissesse em voz alta seus próprios pensamentos. –Você também tem medo da solidão e imagina que um companheiro pra vida toda não seria uma má ideia.
-Eu não sei, André! Eu achei que quisesse me casar... –Mariana disse com voz embargada –Mas se eu o amasse, não teria entrado em pânico quando ele me pediu em casamento, certo? Eu sabia que não daríamos certo, sempre soube... –o rapaz abriu a boca para interromper, mas ela fez sinal com a mão. –Só que me imaginar ao lado dele para sempre foi o suficiente para me fazer enxergar o era claro.
-...que você nunca foi apaixonada por ele. -André baixou a voz. -Então qual é o problema, Mari? Me parece que você fez uma escolha certa e deveria estar se sentindo feliz por isso.
-E esse medo aqui dentro? Esse medo de não encontrar outra pessoa? De dar espaço a alguém novo? De quebrar a cara mais tantas vezes... André, e se... –ela parou e engoliu um nó na garganta. –E se ninguém mais se interessar? E se era pra ser ele e eu fui exigente demais?
O rapaz encarou-a confuso por um instante para depois aproximar-se devagar.
-Você não pode ta falando sério. Aquele cara... Ser o cara da sua vida? Mariana, você pode ter muitos defeitos e ter cometido muitos erros, mas nada justifica tamanha punição! Hahaha! –ele riu da própria piada, mas logo se recompôs, diante do olhar triste da amiga. –Olha pra você, garota..! Não vou dizer dos atributos físicos que deles você já tem certeza, e ainda que não os tivesse... Você é engraçada até quando tenta ser séria e a sua risada, meu Deus, sua risada acorda as pessoas. Você é legal, Mari. Longe da TPM você é legal.
-Mas eu detesto beber cerveja de supermercado dentro do carro.
-Um pouco esnobe, eu diria... –ele adiantou. –Coisa que dá pra corrigir. Agora para de pensar nisso. A vida não começa depois do casamento, ou depois da casa, ou depois dos filhos. Já tá acontecendo aqui, bebendo essa porcaria nesse carro velho, ao lado desse gato aqui. E como eu te falei na festa de formatura, se tudo der errado e a gente se cansar de ser solteiro, eu faço o sacrifício e caso com você. Vai ser difícil, eu sei... Vou me arrepender assim que disser "Eu aceito", sei também... Mas poderemos vir pra cá beber sempre que nos sentirmos entediados.
-Vamos ter que trazer as crianças... 
-Sim. A gente solta elas aqui.
-Tipo cachorro, André, que horror! Hahaha!
-Mas a gente põe naquelas coleiras de travar, sabe? Que aperta o botão pra não esticar mais? Serão lindos, nossos sete filhinhos...

Mariana bebeu mais um gole de sua cerveja (Nem tá gelada, André!), implicou com seu melhor amigo e perdeu-se em suas tantas gargalhadas que acendiam a cidade.

-Ah, Mariana... Se você se visse através dos meus olhos...

quinta-feira, 11 de junho de 2015

CARTAS DO SEU MELHOR AMIGO




"Eu já até te imagino apontando esse dedinho pro meu rosto e dizendo, irada que só: 'Vocês são todos iguais!', enquanto eu, desorientado como qualquer cara que não sabe o que as mulheres querem, quando querem ou por que querem, fico com um olhar bobo, pensando em uma contestação.

Nos dias bons, quando você ta longe da TPM, ta alimentada com seu chocolate preferido, e usando roupas novas, eu arriscso dizer receoso: 'Mari, olha só, nós não somos todos iguais! Vocês é que são umas loucas por...' (Atenção aos navegantes: chamar uma mulher de louca encerra toda e qualquer discussão, e, é claro, você é um derrotado, estúpido, cheio de argumentos idiotas). Mas às vezes sou mais cauteloso e digo 'Mari, o que é que vocês querem da gente? Quando somos legais, levamos fora. Quando mandamos flores, somos desesperados, quando ignoramos, somos filhos da mãe..?'

E você, irritada demais para ter paciência com seu o seu melhor amigo, me diz que 'Não adianta explicar' –desvia os olhos- 'Você nunca entenderia...'. Tô te falando que to quase desistindo viu.

Que nem aquela vez, numa festa de casamento, em que eu beijei duas de suas amigas, lembra? Antes mesmo que eu chegasse em casa, havia vinte mensagens suas em meu celular que piscavam, lançavam chamas e gritavam 'VOCÊ É UM BABAAAAACA!'. Ok, eu fiquei com duas garotas que eram amigas. Foi na mesma noite, certo. E: elas ficaram sabendo uma da outra e foram bater boca no banheiro, enquanto eu, apoiado em meu copo de vodka, xavecava a terceira, tudo... É... Bom.

Mas justiça seja feita e eu quero que você se lembre daquela vez, Mariana, em que você ficou com meu irmão, com meu primo E com um terceiro aleatório, todos no mesmo dia, lembra? Carnaval de Diamantina, três anos atrás? Meu irmão, que era louco por você, passou todo o Carnaval chorando bêbado e dizendo ‘Aquela desgraçaaaaaada’. Meu primo tava nem aí, queria mais é que sua vez na fila chegasse novamente; e você? Você exalava gim tônica e sorria! Eu fiquei puto tentando te colocar limites e você respondia, debochada, 'Ah, quê que teeeem?.

Então eu te pergunto, minha garota, minha linda, minha melhor amiga: por que é que nós, homens, somos todos uns canalhas e para vocês, mulheres, tudo bem vez ou outra endoidarem e saírem por aí brincando de micareta? Por que a gente é filho da mãe se ignora uma garota, mas tudo bem para vocês darem end no nerd que mandou um poema do Drummond pelo Whatsapp? Por que, me explica, quando um cara se apaixona, você e suas amigas logo se reúnem, estilo convenção das bruxas e enumeram mil defeitos do infeliz, pontuando ao final que ele é um sem noção por ter caído de amores tão rapidamente? Mariana, Mariana, me ajuda a te entender: por que eu sou um cafajeste e você não?

Já te vejo me fuzilando com os olhos bem apertados, abrindo a boca para argumentar três vezes, e dizendo que 'É muito diferente'. Pois agora sou todo ouvidos. Espero uma resposta me explicando essas coisas aí que lhe parecem tão obvias, mas para mim, não tem sentido algum.

Não fica brava comigo, certo? É só mais uma dessas cartas chatas que eu teimo em te escrever quando me falta sono, sobra café e indagações (como aquela última sexta-feira, antes do feriado. Você ficou muito doida né. Me falou um monte de coisa que eu prefiro discutir pessoalmente). Por enquanto, é isso. Não vou te amar menos, ou mais, por perceber que às vezes, somos muito iguais e no fim, ser homem ou ser mulher, pouco muda na prática... (Você sabe, eu digo, por dentro... Alma, essas paradas aí porque por fora somos muito diferentes e, é claro que eu prefiro você! :)   )

Beijos,

Seu melhor amigo, A.

PS: Te pago uma bebida amanhã à noite para fazermos as pazes."





terça-feira, 2 de junho de 2015

Para uma jovem solitária em Paris







Era segunda-feira, nove da noite, e Gare Du Nord parecia estar apenas se espreguiçando timidamente depois de um cochilo, para mostrar como é que se faz uma zona boêmia em Paris.

Anote aí: é preciso uma profusão de luzes coloridas, buzinas, som de automóveis e de rodinhas de malas ecoando no pavimento, é preciso uma encantadora estação de trem e jovens -milhares deles- chegando de toda parte do mundo, maravilhados ao verem pela primeira vez a Rua Dunkerque tomada de cafés, boulangeries e sex shops. Ah, e na verdadeira zona boêmia de Paris não poderia faltar alguns bêbados trôpegos e pedintes maltrapilhos, são eles que mantém as pessoas mais afetadas distantes da região.

E lá em qualquer parte de Gare Du Nord, num pub cheio de jovens estrangeiros que faziam sequências intermináveis de brindes, a noite estava começando. Algumas meninas loiríssimas de bochecha cor de rosa queimada de frio se aventuravam na pista de dança ainda deserta enquanto Rihanna se eternizava como música tema para um casal que se beijava desesperadamente a um canto “Where have you been all my life?”. O grupo de brasileiros com camisa de time gargalhava alto e procurava avidamente pela próxima presa. Os argentinos ao lado olhavam de esgueira e estufavam no peito o agasalho do Boca Juniors, procurando, talvez, por uma presa brasileira -apenas para implicar, sabe como é.

Então meio à música eletrônica, às diversificadas nacionalidades, àquele lounge que exalava juventude e o cheiro forte de shots de tequila, havia essa garota que dançava feito uma bailarina embriagada e distribuía sorrisos faceiros e piscadelas divertidas às pessoas ao seu redor. Eu, sob hipnose feito os demais, pousei meu drink na mesa, guardei o telefone celular e dei pause em minha vida simplesmente para assistir aquela moça viver.

Dançava um ritmo que tocava apenas em sua mente e seus braços magros, compridos, desengonçados, faziam-na parecer engraçada à primeira vista. Mas ela sorria –sorria principalmente com os olhos -, gargalhava, sacudia os charmosos cabelos castanhos e magicamente as luzes do pub e do universo voltavam-se para ela.

Imagino que quando Amy entrou no pub, com aquele vendaval que a acompanhava, passando as mãos pelos cabelos de uma maneira deliciosamente pretensiosa, todas as meninas ajeitaram o decote, retocaram o batom, se olharam no espelho, procurando ali algum resquício de sensualidade, porém Amy, naturalmente atraente e autoconfiante como somente alguém com tanto magnetismo podia ser, não se importava nem um pouco; pelo contrário, instantes depois se vendo só, puxou as tímidas russas para a pista de dança e fez uma festa ao redor de si mesma.

Eu ainda não conseguia deixar de olhá-la, então me aproveitei do providencial anonimato que nos acompanha em viagens internacionais (afinal, quem era eu, senão mais alguém só no mundo?), e decidi me aproximar de Amy. É claro que da decisão e do discurso ensaiado até uma ação efetiva transcorreu longo tempo, mais precisamente, o tempo de dois drinques. Por fim conclui que não haveria testemunhas de qualquer que fosse o vexame e adaptei a popular frase para aquele meu momento:

-O que acontece em Paris, fica em Paris.

A caminho de Amy (ela estava escorada no bar aguardando outra bebida) meu coração deu meia dúzia de saltos. Somente quando me aproximei e cantarolei um embaraçado “Hi” foi que me dei conta de que não tinha absolutamente nada para lhe dizer. Mas aquela garota não hesitava em ser incrível e me abriu um simpático sorriso, como se nos conhecêssemos de longa data. Sedutora incorrigível, Amy me ganhou na terceira frase:
-Eu sabia que você era do Brasil. –sorriu mais uma vez e se adiantou em explicar diante de minha confusão. –As pessoas do Brasil são as mais bonitas.

Piscou com um olho só e saiu novamente em direção à pista de dança.

Permaneci em êxtase no bar planejando a próxima conversa que teríamos. É claro que eu seria capaz de falar mais do que uma frase e certamente não gaguejaria; Amy continuaria sorrindo com seus intensos olhos castanhos e perceberia num estalar de dedos que eu também era incrível.

Enquanto ela dançava, eu aguardava seu retorno ao bar e brincava em minha mente de adivinhar-lhe a vida. Parecia, daquele ângulo, uma jovem francesinha fugida do tédio de Trocadero, cansada dos rapazes óbvios e das casas noturnas da parte alta de Paris, escolhia as segundas-feiras para extravasar nos arredores da cidade o desprezo que sentia pela burguesia. Mas num outro viés, Amy me parecia descolada demais para Trocadero e eu lhe dava asas: era intercambista ou mochileira e aquela ela sua última noite em Paris, nada mais justo que se divertisse tão intensamente. Por fim, me rendi ao romantismo clichê e concordei que Amy era uma moça simples do interior da Alemanha que viera tentar a sorte num lugar diferente, mas por enquanto ganhava seus trocados trabalhando como garçonete e aquele segunda-feira era uma merecida noite de folga. Amanhã bem cedo vestiria seu uniforme e com os olhos ainda ressaqueados tomaria um café duplo (aquele horrível café parisiense!) e pegaria o metro para a Avenue Montaigne, onde andaria cabisbaixa para se misturar à multidão apressada. Ah, Amy, alemã e francesa em seu dia a dia, fazendo preces em Sacre Coeur, comprando flores em Montmartre, mandando postais de Notre Dame para seus pais...

Eu de olhos perdidos na fantasia, perdi Amy de vista e já pelas tantas da madrugada foi que ela voltou ao pub num rompante, fazendo a porta bater atrás de si. Não sei quanto tempo ficou fora, sei que o lugar havia novamente se tornado insosso, mas ela tampouco parecia querer reacender seus espectadores: estava apática, o semblante sério e os olhos que antes me sorriam, eram agora os mais tristes do mundo, mergulhados em melancolia e solidão.

“Estamos todos sozinhos também, Amy”, eu gostaria de tê-la dito e consolado a angustia que agora escorria silenciosamente de seus olhos e morria na curva do queixo “Aproxime-se de sua solidão, celebre sua presença, ela lhe mostrará que não é tão feia e amarga quanto lhe disseram as pessoas efusivas; os seus medos você os conservará tal e qual inimigos, bem junto de si, e de tempos em tempos encare-os severamente para eles sintam...medo. E não tente se desfazer desse caos que habita em você, menina, antes, aceite-o. Aprenda a conviver com as nuances escuras de sua alma, Amy, são elas que te fazem tão inesquecível..” era o que eu gostaria de ter dito ao enxugar suas lágrimas e passar os dedos por entre seus cabelos.

Mas Amy levantou-se novamente, me sorriu um sorriso doce e tão doído que quase me partiu ao meio, pegou a bolsa e o casaco (Parecia uniforme de um restaurante ou eu já havia enlouquecido?) e saiu silenciosamente do bar.

O resto disso são só divagações da minha mente que guardo sobre Paris. 


sábado, 16 de maio de 2015

'Memórias de uma blogueira na Europa" - A BALDEAÇÃO, PARTE I


Eu não me perdoo por ainda não ter tirado um tempo para narrar uma das melhores e mais inesquecíveis experiências da minha vida que foi minha aventura para a Europa, nas férias desse ano.

Não vou pormenorizar quando e como surgiu a oportunidade da viagem, fato é que em 26 de março, numa quinta-feira à noite, minha jornada começaria rumo a Paris. Mas a minha baldeação beirava a insanidade e depois que eu expliquei tipo três vezes para mãe como é que eu finalmente chegaria a Paris, ela riu e falou com seu costumeiro tom de deboche:

-Minha filha, estão te pagando quanto para fazer essa viagem? –muitas risadinhas abafadas em seguida.

Vamos lá né gente, era uma passagem promocional, eu não poderia me importar em passar quatro dias viajando, fazendo escalas em quatro cidades, duas rodoviárias, dois aeroportos e uma estação de trem. Acompanhou? Bom, basicamente só não teve navio como meio de transporte, mas são detalhes. Cheguei em BH sexta de manhã e Lucas e eu estávamos em polvorosa, porque ele era meu então companheiro de viagem, que chegaria em Paris um dia antes de mim. Mas um balde de água fria, repentino e inesperado, acabou com nossa excitação na sexta-feira à noite, véspera da viagem, pois Lucas foi chamado na prova de residência e começaria já na segunda! A partir daí nos vimos num verdadeiro dramalhão mexicano, passamos uma noite toda regada a latões de Brahma, lágrimas, telefonemas durante a madrugada, vídeos de cachorrinhos sendo resgatados, indecisões e mais lágrimas.

No sábado de manhã, me sentindo completamente devastada e tonta, parti de BH para o Rio de Janeiro sem Lucas. 


         BH > RIO > GUARULHOS. DONE.
                                 

Assustada demais para me dar conta de que estava indo fazer minha primeira viagem internacional sozinha, nem eu mesma acreditei quando me vi, no domingo, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, prestes a embarcar rumo a Amsterdam.

   Fila de promoção é assim né, migs

O quanto eu senti medo, não preciso detalhar, basta dizer que Belo Horizonte era o mais distante que eu me permitia chegar sem meu travesseiro, então alguma coisa em minha cabeça dizia “POR QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO, PEQUENO GAFANHOTO? VOLTE PARA MOMMY”. Eu ouvia todo mundo dizer “Paula, mas essa vai ser uma experiência incrível para você, que é a pessoa mais avoada e medrosa do universo. É quase um teste empírico de que bebês foca sobrevivem quando estimulados por uma real necessidade”. Mas eu respondia “É claro que será uma ótima experiência se eu voltar. E se roubarem meus órgãos? E se me sequestrarem igual na novela? E se eu pegar o trem errado e acordar na Eslovênia? Porque eu não sei falar esloveno..”, e assim eu divagava.

Viajei praticamente em uma turbulência. Poucos foram os minutos em que o avião não sacudiu e, no auge do meu desespero, sem ter ninguém para eu dedicar Belchior:  "Foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez na sua mão...", me entupi de Dramim e acordei sobrevoando solo europeu. Aí a cara da viagem mudou e eu comecei a sentir uma animação quentinha surgir em mim, feito um solzinho em dia de frio. Durou muito pouco esse solzinho, porque quando desembarquei, um guarda alfandegário (que seguia o padrão local e era muito bonito, por sinal) me entrevistou por quase uma hora perguntando por que, afinal, eu estava viajando sozinha. No final da entrevista, vendo que eu já estava muito puta da vida, o guarda começou a fazer hora com a minha cara e faltou me perguntar se meus gatos comiam ração Whiskas ou Friskies (Resposta: nenhuma das duas).


Instalei-me comodamente no aeroporto Schipol, onde aguardava meu trem para me levar a Paris. O que fiz nas poucas horas em que estive lá? Esse vídeo aqui informa: fiquei quase três horas falando sozinha enquanto tentava me habituar ao frio de nove graus. Ness’altura da viagem o solzinho já me esquentava novamente e diante de tanta novidade a ser registrada por meus olhos, o medo ficou para trás.

Certifiquei-me umas cinco vezes do horário do meu trem, da plataforma, da porta e da cadeira. Eu realmente não podia ir parar em outro país porque, como já disse antes, eu não sei falar esloveno ou finlandês e derivados. De vez em quando em me lembrava de como seria legal estar fazendo essa aventura acompanhada e a saudade de Lucas me matava. Impossível não lembrar as nossas conversas antes da viagem, quando imaginávamos, morrendo de rir, como seria se pegássemos trens errados e não nos déssemos conta nem quando chegássemos ao destino. Segundo ele, eu desceria em Praga super empolgada e chegaria a um hostel aleatório "Oi, Lucas já chegou?", e ele me mandaria um whatsapp de Bruxelas "Negraaaa cadê você? Estou te esperando em Paris há dois dias!!!".

Tive que engolir a vontade de chorar, especialmente quando me lembrei de novo do vídeo que assistimos juntos (o cachorrinho sendo resgatado), e tomei o trem Thalys para Paris. A senhora que estava ao meu lado era um verdadeiro anjo e morreu de rir quando eu disse que estava com medo de ‘passar de Paris’. Não só me deu altos conselhos, como me avisou para ir buscar a mala antes de todo mundo, para não ficar agarrada.
                                              



Pisei um dos pés na estação Gare Du Nord, maravilhada e ansiosa, quando me vi envolta numa espécie de bruma romântica que constatei em seguida ser um nevoeiro de fumaça de cigarro mesmo. Quando tossi, as duas chaminés travestidas de moças que estavam à minha frente, pararam, olharam para mim da cabeça aos pés, e caíram na risada. Fechei a cara e ultrapassei-a com minha mala 1.6.


Mal havia chegado ao meu destino, com uma sensação maravilhosa de liberdade e autonomia, e já havia sofrido meu primeiro bullying (o que, para estrangeiros em Paris, é até corriqueiro, tão constante ocorre). Então ergui a cabeça, deslumbrada demais para registrar passagens ruins, e segui rumo á Rue Dunkerque. Paris, finalmente!


Próximos capítulos: "Como curtir sozinha em Paris", "Minhas amigas finalmente chegaram!" e "Amsterdam, uma história de amor".


Update: Parte II (De Paris, com Amor)

Bisou, bisou!

terça-feira, 5 de maio de 2015

Confissões de um sedutor irreparável






       “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne.
 Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: 
a ponta da língua toca em três pontos consecutivos 
do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta.”

Vladimir Nabokov

Vamos jogar um jogo?

Você me procura e eu te ignoro. Depois mudo de ideia e te puxo de volta.

Te beijo vorazmente e juro amor eterno olhando no fundo dos seus olhos. Mas em um segundo me canso e te faço sucumbir, de joelhos, humilhado e ferido, aos meus pés.  

Espero o tempo passar, você se recompor, lamber tuas feridas, só para voltar novamente e te enlouquecer.


Antes que eu perceba, já tenho um objetivo, uma estratégia, uma artilharia e uma guerra a vencer: um de nós dois vai ter que cair. Mal me dou conta e já estou te encarando por cima das cartas, jogando os dados e umedecendo os lábios com a ponta da língua enquanto te distraio do jogo. Volta e meia me vejo venerada e odiada por mulheres que acreditam dominar minha arte.


Lolita se tornou meu livro de cabeceira e me pego em meio a enlouquecidos 'Humbert Humberts', jurando amor sincero, jurando meu fim... Mas eu jogo os cabelos para trás e rio gostosamente na cara do perigo. Eles são inofensivos e esse jogo já está ganho.


É preciso traçar um novo objetivo, ainda mais difícil que esse último, e recomeçar tudo de novo. A adrenalina toma conta de todo meu corpo quando coloco meu time em campo, mas logo o sangue se esfria, porque esse foi mais fácil do que eu esperava. Não venha me julgar e dizer que não presto, porque eu e você sabemos que somos igualmente viciados em seduzir: somos ávidos pela conquista. E também não se faça de santo: ser desejado e desejar, ardentemente, uma pessoa, é capaz de fazer qualquer bom moço sentir calor.


Porém, Casanova, chegou a hora de parar. A sedução é uma guerra, um jogo, uma arte, mas também uma doença. Ninguém conta nos livros como é que me sinto vazia depois de conquistar um objetivo e como a ânsia por um novo desafio cresce feito um monstro dentro de mim. Como é superficial e frio viver de amor em amor esperando que eles me respondam perguntas que sequer sei quais são.


Talvez os fantasmas do passado ainda nos assombrem, Casanova. Talvez eles escarneçam e sussurrem em nossos ouvidos que merecemos mesmo uma vida de amores levianos para pagar por tudo que fizemos e que nunca vamos conseguir amar de verdade.
Mas meu meu amigo, se isso é um desafio... Eu já aceitei antes que a aposta fosse feita.